08-01-2010
4 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quinta-feira, Janeiro 07, 2010 at 1/07/2010 11:37:00 AM.O que acontecer esta sexta-feira será, indubitavelmente, histórico. Não será a primeira vez que a Assembleia da República debate o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas será - esperemos - a primeira vez que que o aprovará. Trata-se, claramente, de um importante passo na luta pela Igualdade e na remoção de uma das injustiças mais flagrantes que subsistem na sociedade e no ordenamento jurídico português.
Mas o caminho é ainda, saibamos reconhecer, bastante sinuoso. Se um provável veto político seria relativamente ultrapassável, nenhum dos responsáveis políticos parece querer falar da possibilidade de vir a ser requerida a fiscalização preventiva pelo Presidente da República.
É que, de facto, a proibição de acesso à adopção, colocado nos termos em que o Executivo pretende, tem tudo para ser inconstitucional, dado que não se assume possível a exclusão de um individuo de procedimentos administrativos tendo como base critérios de orientação sexual . E claramente o será porquanto será apenas essa a diferença do seu casamento para os demais.
Seja como for, da nova lei resulta criado um imbróglio jurídico que, muito possivelmente, poderá chegar, por via da fiscalização preventiva, ao Tribunal Constitucional.
Se os Juízes do Palácio Ratton forem chamados a este assunto e se concluírem pela inconstitucionalidade da norma que proíbe a adopção, como me parece provável que o façam, a Assembleia da República terá, teoricamente, as seguintes possibilidades:
- Expurga a norma considerada inconstitucional pelo TC, mantendo o diploma original e abrindo concomitantemente portas à adopção;
- Confirma o diploma por maioria qualificada, muito pouco verosímil em face da sua prática política e da maioria que a compõe;
- Reformula o diploma, apresentando nova lei sendo que, no caso presente, isso seria difícil porque implicaria sempre a questão da adopção.
Existe ainda uma quarta possibilidade, provavelmente muito mais confortável: nada fazer. Tão simplesmente assim: nada fazer. Deixar tudo como dantes. Aqui chegados, e em face do ênfase que Sócrates coloca no facto de não ter legitimidade para impor a adopção, aceitaria Sócrates uma situação em que teria que ceder nesse ponto - o da adopção? Ou, em face de uma ameça eleitoral antecipada sempre presente, optaria por o deixar para novo programa eleitoral?
Por outras palavras e sem tibiezas: acaso terá o leitor razões para, neste assunto, confiar por inteiro no PS?
E não considere isto pessimismo. Nada disso. Trata-se, tão somente, de pragmatismo e de uma tentativa de antever possíveis cenários políticos. O que, por uma questão de estratégia, devemos todos ser capazes de fazer.
Assente isto, sempre se dirá que os caminhos da Liberdade foram e sempre serão tortuosos. Sinuosos. Difíceis e, por vezes, implacáveis. Mas é para lá que inevitavelmente todos nos encaminhamos, na busca incessante de uma Felicidade que afirmaremos à luz clara de um dia que também se fez para nós.
É por isso que amanhã também estarei lá.
[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT ]
Etiquetas: casamento civil, portugal, PS, sócrates
2010
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Janeiro 01, 2010 at 1/01/2010 12:00:00 AM.o buraco (mais outro)
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quarta-feira, Dezembro 30, 2009 at 12/30/2009 12:47:00 AM.
A sucessiva abertura de telejornais começa a tornar o tema BPP demasiado preocupante para se deixar passar sem uma análise daquilo que todos os dias esta questão nos vai progressivamente revelando. E, para além do -admita-se sem tibiezas- sofrimento dos pequenos depositantes que enfrentam a quase certeza do desaparecimento de legítimas poupanças de vida, existem questões que talvez devessem merecer mais explicações das autoridades competentes.
Senão, vejamos: sabemos hoje que Tribunal de contas chumbou o aval do Estado ao empréstimo de 450 milhões ao BPP. Disse aquela cúria que o referido aval concedido pelo Estado ao Banco Privado Português no ano de 2008 não cumpriu as normas legais exigidas neste tipo de operações. Não existiu, pelos vistos, qualquer plano de recuperação da instituição. "Não existindo essa segurança, a garantia não poderia ter sido concedida" argumentou o Tribunal de Contas.
Mas foi.
A resposta da Direcção Geral do Tesouro e Finanças foi que "as contragarantias prestadas tinham valor contabilístico superior ao montante do financiamento".
Um ano depois, os auditores costumeiros nestas andanças (no caso, a Deloitte) dizem-nos que as ditas garantias valem 150 ou 200 Milhões de Euros. O que, deixe-se claro, não espanta dado, por um lado, os interesses de quem solicita este tipo de avaliações mas, também e por outro, o facto de ter o dito Tribunal notado que "dada a grande celeridade que revestiu o processo de concessão da garantia do Estado, esses bens foram, quando muito, objecto de uma análise superficial e aceites pelo valor indicado pelo BPP: 672 milhões de euros. Mas, logo na primeira análise efectuada pelo Banco de Portugal, o valor desses bens estava já reduzido para 439 milhões de euros".
Admitindo-se, como parece ser óbvio, que a expressão "análise superficial" aqui empregue não passa de um puro eufemismo para algo que não se arrisca afirmar, resta-nos a legítima questão: se o Ministério das Finanças nos garantiu que não havia risco sistémico, por que critérios insondáveis se guiou tão sumária decisão? E a questão não é de somenos importância: afinal de contas, trata-se "apenas" de mais um buraco, 400 Milhões de Euros mais coisa menos coisa, que todos pagaremos.
cartoons: Sérvia candidata à UE
1 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Dezembro 25, 2009 at 12/25/2009 10:06:00 PM.
Etiquetas: cartoons, macedónia, montenegro, sérvia, turquia, união europeia
o deputado Carlos Peixoto
3 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Dezembro 20, 2009 at 12/20/2009 10:09:00 PM.As declarações do insigne deputado Carlos Peixoto devem, ao contrário do que alguns parecem fazer querer, merecer comentário.
Primeiro, e numa tonalidade mais genérica, o reparo que se impõe à qualidade intelectual e brio profissional de alguns dos deputados que vimos escolhendo para nos representar: é que o medo ainda colhe apoio - e muito, pelos vistos -como modo de fazer política e na ausência de ideias, de argumentos propriamente racionais e razoáveis, a demagogia será sempre um instrumento portátil e eficiente na captação de votos, sobretudo se o disparate, o desatino e o absurdo forem ditos com uma certa sobranceria de quem é...deputado.
Depois, no caso em particular da consagração do casamento civil entre pessoas do mesmo genéro, porque nos lembra a todos das razões desta luta. E da sua continuidade, mesmo depois de obtida a vitória final, algures no dia em que a alteração legislativa for dada à estampa oficial em Diário da República. É que agora como daqui por muito tempo, subsistirão muitos "Peixotos" - de uma banca de um qualquer Mercado às bancadas daquela Assembleia pátria - interessados em confundir, generalizar, deturpar, discriminar e em, sobretudo, arranjar razões aparentemente lógicas para o fazer.
É importante que, na sensação ilusória de uma verdade que nos parece auto-evidente, não o esqueçamos. Sobretudo agora que o adversário parece empenhado em cerrar fileiras na costumeira e historicamente popular simbiose de ódio e ignorância.
[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT ]
Etiquetas: casamento civil, portugal, PSD
a evidência na face oculta
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Novembro 22, 2009 at 11/22/2009 03:38:00 PM.E eis que as escutas chegam - outra vez! - ao debate público. A sociedade portuguesa tem sido amiúde bombardeada por este tema. O presidente que suspeita. A oposição que "não se pronuncia" mas que se vai pronunciado. Os jornais e as televisões que acusam. O "revela" e o "não revela". O "despacha" e o "não despacha". O "destrói" e o "não destrói". O PGR, o Supremo...e o Governo.
Tudo temas perigosíssimos, na ténue linha que separa a Democracia da Ditadura, a Liberdade da Escravidão e a Privacidade da Devassa. E - pior ainda - quando se tornam móbil de todas as demagogias em face da politiquice irresponsável que ousa cavalgar as desventuras da res pública com o ar solene e pesaroso de quem sofre com este estado das coisas.
Mas vejamos por partes.
Em primeiro plano - o da questão jurídica -, com a devida humildade técnica me coloco entre aqueles que pensam que a actuação do presidente do STJ foi juridicamente correcta.
O artigo 11º do Código Processo Penal estabelece a competência do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça para autorizar a intercepção, gravação e transcrição de conversações em que intervenham o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República e o Primeiro Ministro.
Ora, conforme todos sabemos, o grande problema jurídico porquanto não explicitamente previsto pela lei é justamente saber qual a solução a dar para os casos em que tais figuras de soberania sejam escutadas de forma fortuita quando os escutados/suspeitos/arguidos eram outros. Por outras palavras, saber se a lei - nas palavras do legislador - quis abranger estes casos de puro e simples mero acaso em que figuras de Estado são interlocutores de suspeitos.
Mas pelo facto de não estar explicíto não quer dizer que não se possa retirar a norma aplicável.
Para que o compreendamos é necessário, antes de mais, que procuremos entender qual a razão de ser da norma constante do artigo 11º do CPC. Ao contrário daquilo que o raciocínio mais simplista - e porventura, demagógico- defenderia, não se trata de um privilégio de uma qualquer elite directiva que reservou para si o direito de só ser escutada quando os seus pares de elite assim o entenderem.
O Estado de Direito Democrático segue um ténue equilíbrio político institucional que assegura (ou procura assegurar) a co-existência de todos os poderes, embora devidamente separados entre si. Legislativo, Executivo e Judicial. E seria até formalmente possível manter essa coexistência se um qualquer juiz pudesse autorizar uma escuta ao Presidente da República ou Primeiro Ministro.
Contudo, mais do que a coexistência formal entre os poderes, o equilíbrio entre eles estaria irremediavelmente posto em causa. E, com ele, a subsistência do Estado de Direito Democrático. Razões de cautela institucional e protecção de um determinado adquirido civilizacional assim o aconselham sem que outra solução se mostre realmente mais razoável.
E - insisto - não se trata de um privilégio. Trata-se, isso sim, da necessidade perfeitamente razoável de ter de ser o mais alto dos magistrados judiciais a decidir a imposição de uma limitação à privacidade de um indivíduo, cidadão como qualquer outro, sim, mas titular de um cargo soberano.
Mais do que um entendimento meu, parece-me ser este o critério especial que resulta da interpretação da norma acima dita. E que, como tal, deverá ser oposto a todas as normas gerais.
E não se diga que a ratio da norma se aplicaria apenas a situações em que antecipadamente se deveria suscitar a autorização do Presidente do STJ e nunca àquelas situações - como a do caso face oculta - em que estaria em causa o conhecimento fortuito de alegados crimes por parte de um interlocutor do escutado, por mero acaso, titular de um órgão de soberania. O facto de a escuta ter sido "por acaso" não quer dizer que o mesmo princípio não se deva aplicar. E outra opinião, pura e simplesmente, será irrazoável. Assim, a escuta, ainda que inadvertida, há-de sempre recair na competência do presidente do STJ que pode e deve ordenar a sua transcrição ou destruição.
Ora, assim sendo mais não se pode senão concluir pela nulidade da prova, tendo por base o artigo125 do Código Processo Penal quando se refere que são nulas as provas obtidas com violação de direitos do indivíduo.
E isto é assim, tão-simplesmente, porque tem que ser. Mal estaríamos se uma prova ilegal pudesse servir para abrir suspeitas sobre um cidadão. Seja ele qual fôr. Mais: o artigo 187º CPP estabelece, no seu nº 7, que a gravação de conversações ou comunicações só pode ser utilizada em outro processo, em curso ou a instaurar (como seria o caso), se houver razões para crer que a diligência é indispensável para a descoberta da verdade ou que a prova seria, de outra forma, impossível ou muito difícil. Ora, parece notório não ser este o caso presente.
Razão expostas, muito se espanta o posicionamento de alguns doutrinários penalistas como o Prof. Paulo Pinto de Albuquerque quando vem defendendo que as escutas em causa deveriam ser exibidas - por razões de transparência - e que juridicamente não seria admíssivel o despacho do Presidente do STJ(!?!?). Resguarda-se, para tanto e aparentemente, no interesse social e público que se traduziria na exposição das conversas de Sócrates.
O douto professor coloca, deste modo, em clara oposição interesse da investigação criminal e interesse social e público.
O que é, convenhamos, extremamente perigoso e contraproducente. Primeiramente, porque confunde deliberadamente interesse popular com interesse social, travestindo a devassa de transparência.
Depois, porque ignora intencionalmente que compete ao Poder Judicial levar a cabo a síntese daquilo que é, do ponto de vista judicial, a necessidade social. O que é diferente de necessidade popular. E que, nessa competência exclusiva, assiste aos órgãos do Poder Judicial sua exclusiva decisão sob pena de se colocar em crise um enorme adquirido civilizacional democrático. A devassa das conversas privadas tidas por judicialmente irrelevantes justificada por um alegado "interesse público" trará consigo um critério que servirá amanhã para qualquer outro cidadão.
Mais, também não pode colher a tese absolutamente demagógica e popularesca que existiria uma "suspeita" por parte do procurador e Juiz de Instrução de Aveiro. Desde logo, porque à suspeita do primeiro se sobrepõe a consideração do PGR, órgão máximo da Magistratura do MP, que não existe qualquer fundamento para semelhante suspeita. E, num Estado de Direito Democrático, isso tem de valer por si, sem mais.
E, depois, porque essa alegada suspeita que o JIC de Aveiro também teria parece ser nada mais do que uma produção mediática. O Juiz de Instrução limitou-se a autorizar a emissão de uma certidão, daqui não podendo resultar qualquer adesão a qualquer teoria de suspeição. Tal despacho não encerra em si qualquer implicação material, sendo de natureza meramente formal.
Assim sendo, teorizações nesta linha mais não farão do que apelar à Justiça de índole popular, politizando-a e prestando um péssimo serviço à Democracia e à realização do Estado de Direito.
Depois, num segundo plano de análise e que não deve ser descurado no caso presente caso - a questão política.
E, nesse sentido, talvez seja pertinente compreender que na matriz ocidental contemporânea tanto a Justiça tem sido politizada como a vida da polis tem sido judicializada. No embate entre os 3 poderes por um certo reconhecimento social de hegemonia de facto, todos os 3 poderes procuram instrumentalizar, na medida do possível, os seus "concorrentes". E facto é que da obsessão jornalística por processos judiciais (porventura com um grande primórdio contemporâneo no Processo Dreyfus) nasceu a compreensão genérica por parte do poder judicial contemporâneo da sua capacidade de influenciar os demais poderes da Polis.
E, talvez também por essa razão, a imprensa e o Poder Judicial vêm mantendo uma relação de parasitagem mútua. E, nesse sentido, é natural que informações sejam amiúde "deixadas sair" à luz de critérios aparentemente insondáveis. Esta observação, se relativamente válida para todos os países, assume-se, creio eu, certeira na matriz portuguesa. Surge, então, uma particular noção de "Jornalismo interventivo" que, podendo ser tanto certeiro como absolutamente matreiro, chamará à sua defesa uma Opinião Pública sequiosa de conspirações e arranjos contra si. E, talvez pelo caminho, não perceba esta que, como aquele, foi instrumentalizada.
Por outras palavras: não estará na altura de VERDADEIRAMENTE se pôr ordem no segredo de Justiça? Afinal de contas, quem são os titulares do Inquérito em Processo Penal?
novas de itália # a podridão que grassa
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on at 11/22/2009 03:18:00 PM.
«(...) Brenda estava no centro das atenções depois de aparecer num vídeo com Piero Marrazzo, o presidente da região de Lazio, onde fica a capital italiana. Chantageado por quatro polícias que lhe tentaram extorquir dinheiro em troca de não revelarem as imagens comprometedoras, o antigo jornalista da televisão RAI 3 e importante figura da oposição de esquerda ao primeiro-ministro Silvio Berlusconi acabou por se demitir em Outubro. (...) O corpo de Brenda foi descoberto pelos bombeiros que arrombaram a porta da cave. A transexual estava no chão, ao lado da cama, com duas malas prontas, três garrafas vazias de whisky Ballantine's, o computador no lavatório cheio de água. Espalhado pelas paredes e pelo chão havia vestígios de líquido inflamável.
Dias antes, Brenda fora interrogada pelos magistrados, juntamente com Natali, outra transexual que recolhia a preferência de Marrazzo. Ambas responderam a perguntas sobre a chantagem de quatro agentes da polícia que surpreenderam o presidente da região de Lazio com as transexuais e exigiam avultadas somas de dinheiro para guardar silêncio e entregar o vídeo.
Este é o segundo crime ligado ao caso Marrazzo. O primeiro foi o do traficante de droga Gianguarino Cafasso, morto na noite de 11 para 12 de Setembro. Este, além de fornecer cocaína para as festas, fazia os contactos entre transexuais e políticos que frequentavam a Via Gradoli, a zona residencial de Roma onde vivem muitos agentes dos serviços secretos italianos.»
Etiquetas: Itália
...não obstante irrelevantes políticos para se juntarem a outro que já lá estava. Simpáticos, obedientes e mediaticamente pouco fotogénicos. Mas enfatizemos o lado lado positivo desta escolha: pelo menos não foi Blair.
Cartoon de Schneider.
[A não perder no Presseurop.eu: "Herman e Catherine quê?!"]
Etiquetas: cartoons, união europeia
Eh pá...já que dás a ideia, assim de repente...porque não?!?
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Novembro 08, 2009 at 11/08/2009 04:06:00 PM.Etiquetas: berlusconi, ICAR, Itália, religião
"Concorda com a proposta de proibição de minaretes?"
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Novembro 06, 2009 at 11/06/2009 08:36:00 PM.
E por falar em referendos, é esta a questão que eu e demais cidadãos suíços teremos que responder no final deste mês de Novembro. As vossas opiniões são bem-vindas... [a propósito: "Os suíços têm medo dos minaretes e não são os únicos na Europa"]
Etiquetas: extrema direita, islamismo, referendo, suíça, SVP, xenofobia
Mantendo o que disse, mais não posso senão discordar da ideia de um referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Desde logo, porque semelhante ideia ignora propositadamente a natureza contra-maioritária da consagração dos direitos cívicos. É um facto por mais evidente que, historicamente, terão sido muito poucas, senão nenhumas, as garantias cívicas dadas a minorias por avalanches de maiorias subitamente animadas por um qualquer espírito de protecção dos minoritários.
Depois, e reafirmando o que aqui se disse a propósito do Tratado de Lisboa, o referendo tem sido usado em Portugal como instrumento político "à la carte" que se invoca, com um implícito, às vezes bem explícito, fito de bloqueio, e, sejamos claros, quando dá jeito. O problema é que o mesmo é sempre feito "em nome de uma legitimidade popular" que, na verdade, pouco ou nada importa a quem aparece nestas alturas investido de súbitas vontades de defesa da vontade popular e democrática. À Esquerda e à Direita.
E é por isso que, nestes termos, o Referendo não serve para absolutamente nada.
Etiquetas: casamento civil, portugal, referendo
do apelo às "prioridades"
5 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Outubro 25, 2009 at 10/25/2009 02:29:00 PM.Uma excelente resposta no Devaneios LGBT, pelo cunho do Hélio, à abertura oficial das hostilidades por parte da Igreja Católica.
Etiquetas: casamento civil, homofobia, ICAR, links, portugal
Nick Griffin no question time da BBC
3 Comments Published by Max Spencer-Dohner on at 10/25/2009 01:13:00 PM.Nick Griffin, líder de um dos mais perigosos e extremistas partidos de Extrema Direita da política europeia - o British National Party - pode parecer pouco mais do que um idiota candidatando-se a eleições. Mas das fileiras do seu partido são regularmente ouvidas declarações políticas como a necessidade de o Reino Unido dever voltar a ser 99.9% geneticamente branco, a SIDA ser uma boa doença porque "só atinge pretos e gays", o Holocausto não ter existido ou ainda defesa recorrente da reintrodução dos castigos corporais no Direito Penal e da Pena de Morte para terroristas, homicidas e pedófilos.
E, verdadeiramente pior nesta lista de horrores, é já contar com mais de um milhão de votos e apoiantes em território britânico.
Nesse sentido, muito espantou a opinião pública britânica que a paradigmática e algo tradicionalista BBC tivesse convidado Nick Griffin para um dos seus programas/debate de maior audiência.
Enquanto esteve no ar passado dia 22 de Outubro, Griffin afirmou que os homossexuais são “arrepiantes”, considerou o Ku Klux Klan norte-americano como "não-violento", e disse acreditar que as populações “indígenas” brancas do Reino Unido são oprimidas pela imigração islâmica que causa um "genocídio comparável ao dos aborígenes da Austrália".
A BBC tem sido imensamente criticada por alguma imprensa por ter gratuitamente proporcionado exposição mediática ao British National Party. No entanto, este tipo de iniciativas - nos moldes em que a BBC o fez - devem ser seguidas e repetidas.
O question time da BBC evidenciou, em plenitude, a união da política mainstream contra o extremismo mais abjecto, desmontando racionalmente cada um dos argumentos do BNP. Trata-se de um exercício pedagógico absolutamente necessário que deve buscar a exposição do ódio gratuito e das consquências da aplicação daquilo que não passa de um cabaz de ideiais racistas e xenófobos.
O pior que os a política mainstream pode fazer é ignorá-los.
Etiquetas: extrema direita, homofobia, nacionalismo, racismo, reino unido, xenofobia
liberdade de expressão PSD
7 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quarta-feira, Outubro 21, 2009 at 10/21/2009 12:31:00 PM.o casamento, o Bloco e o PS
5 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Outubro 18, 2009 at 10/18/2009 08:32:00 PM.
Diz-se, por aí, que o projecto de alteração do Código Civil no tocante ao casamento entre indivíduos do mesmo sexo, apresentado há poucos dias pelo Bloco de Esquerda, não passa de chicana política e de uma tentativa de encostar o PS e o novo governo à parede em face de uma promessa sua. Refere-se, em tantas linhas de tantos blogues, que o calculismo imperou e que o xadrez se faz à custa dos homossexuais que esperam e anseiam pelos seus direitos. De certo modo, acredito que sim, que o assunto possa estar a ser usado como arma política. E que, de algum modo, não me é particularmente simpático que direitos cívicos sejam algo instrumentalizados como forma de mapear estratégias políticas.
Mas, por outro lado, dificilmente se compreende a insistência de que terão que ser construídas pontes e lançados diálogos. Que pontes? Que diálogos? Se acabar com a discriminação é prioritário para o PS (nas palavras do seu próprio programa eleitoral) então a igualdade de acesso ao casamento civil deverá ser obtida o mais rapidamente possível. O que há, então e verdadeiramente, a recear no avanço do BE? Parece que apenas protagonismo...E, aqui chegados, parece algo óbvio que o BE tem todo o direito a fazê-lo, sobretudo se consigo tiver o passado de único, inequívoco e claro defensor dos direitos dos homossexuais.
É estratégia? Talvez seja. Mas a Democracia também é feita disto. Saiba o PS lidar com isso e sobretudo com quem não está disposto a aceitar tibiezas ou "ponderações de última hora" naquilo que é, tão somente, a mera consagração de direitos humanos.
[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]
Etiquetas: Bloco de Esquerda, casamento civil, homofobia, portugal, PS
uma "mulher" que resistiu a Berlusconi
1 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Outubro 11, 2009 at 10/11/2009 02:54:00 PM.
Passado 8 de Outubro, o Tribunal Constitucional italiano considerou contrária à Constituição a Lei Alfano, a tal intuito personae que vinha concedendo imunidade às quatro mais importantes funções do Estado, entre as quais a do chefe do Governo, Silvio Berlusconi. Trata-se, saibamos reconhecer, de uma excelente notícia, não apenas para italianos, mas para todos aqueles que pugnem pela primazia da Democracia na definição da Igualdade de todos, sem excepção, perante a Lei. Sobretudo quando os sinais de salubridade democrática que emanam de Itália se revelam extremamente preocupantes, com a natureza sistémica de perigosíssimas tensões sociais exposta à claridade do dia sem que se venha assistindo a particular ou notória reacção de recusa ou expurgo por parte da sociedade italiana.
Assente isto, diga-se que a imprensa internacional aplaudiu - e bem! - a batalha perdida para Berlusconi que foi a derrota no Tribunal Constitucional Italiano e a concomitante vitória da empenhada e persistente Magistratura de Milão que vem, aliás, travando um duelo vigoroso com o actual presidente do Conselho de há muitos anos para cá.
Mas existe, porventura, um problema, ou melhor, uma característica persistente nos observadores políticos não italianos que é patente nas diversas crónicas que se leram por estes dias no jornalismo europeu: A inteligentsia europeia, com o seu xadrez valorativo norte-europeu, olhou com os seus próprios olhos para escândalos sexuais do Verão italiano, com "garotas de programa" transportadas em aviões da força aérea para festas de vícios "privados" de políticos da direita do leste europeu bem como para a pressão exercida por Silvio Berlusconi sobre os meios de comunicação social, para os silenciar, como delírios de um playboy aos comandos de um país que pouco mais tem sido do que pão e circo, corrupção, deboche e regabofe desregrado.
Há, pois, uma redução do problema a uma espécie de folclore transitório supostamente tipicamente italiano que inevitavelmente passará se e quando os italianos se livrarem de Berlusconi.
Mas, na verdade, é muito mais do que isso. Com efeito, a questão italiana passa pela concreta noção de que Berlusconi não é, por si só, a causa e consequência de todo o circo montado. Il Cavalieri é aquilo que é porque o povo que o suporta assim o quis. Porque a rua italiana acha piada ao gingão que ludibria o sistema em obtenção de proveitos próprios, que desvia aviões luxuosos para transformar voos de Estado em charters de raparigas, por assim dizer, pouco católicas; que trata o governo da coisa pública como se uma claque de futebol fosse, apelando a clubismos e vendo inimigos comunistas em todo o lado; Porque, na verdade, a rua italiana adere acriticamente ao princípio "Quem está contra mim é anti-italiano" que Berlusconi popularizou, logo de seguida aceitando, sem questionar, que médicos denunciem imigrantes ilegais, que as "rondas" de cidadãos sejam possíveis em Itália e que a separação dos seus pais e adopção forçada dos filhos de imigrantes ilegais seja nova prática do Estado.
E é por isto mesmo que decretar a morte política de Berlusconi - como tanta vezes fizeram editoriais por essa Europa fora - parece profundamente precipitado. O presidente do Conselho de Ministros italiano vem seguindo uma lógica de permanente teorização da cabala, sugerindo recorrentemente a existência de "forças ocultas de Esquerda" que trabalham contra ele. Aos olhos razoáveis que a distância impõe, qualquer observador diria ser este um exemplo de desespero político.
Mas pode também ser, tão simplesmente, a janela de sobrevivência política. A teorização da cabala, da união "do oculto" contra os desígnios do Poder, não obstante aparentemente ridícula, tem como característica alimentar-se a si mesma. Sobretudo, se propagada num país em que o sistema de Justiça se encontra profundamente desacreditado junto das populações, que não lhe reconhecem qualquer crédito que não o da gestão dos assuntos das corporações e interesses que dele fazem uso.
Etiquetas: berlusconi, cartoons, Itália, Justiça
o princípio do fim de Bretton Woods
5 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quarta-feira, Outubro 07, 2009 at 10/07/2009 12:02:00 PM.Etiquetas: economia, EUA, links, neoliberalismo
res publica (ou o meu exercício de wishful thinking)
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Segunda-feira, Outubro 05, 2009 at 10/05/2009 01:33:00 AM.
Lembrar os valores republicanos é pugnar pela consagração de um espírito de vigência plena da Igualdade e Liberdade. É denunciar opressões e atavismos cujas amarras enclausuram uma sociedade inteira no seu atraso. É compreender que a discriminação, o abuso de poder, o triunfo do mais forte e a inequidade por si mais não fazem do que criar níveis diferenciados de cidadania, eclipsando o adquirido civilizacional que é a absoluta e inegável dignidade de todo e qualquer ser humano.
Saiba, pois, a Assembleia da República, aproveitando a maioria de Esquerda que nela tem assento, aproveitar isso mesmo para, no centenário da República que se avizinha, afirmar em plenos pulmões o seu espírito.
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insano
8 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Terça-feira, Setembro 29, 2009 at 9/29/2009 09:34:00 AM.Belém ultrapassou hoje o limite entre o razoável e o irrazoável, a ténue fronteira onde a responsabilidade vira orgulho e o autismo confirma a insanidade. Absolutamente surreal. E a bem descrevê-lo está José Costa e Silva, no "Lóbi do Chá":
Etiquetas: blogoesfera, cavaco silva, links, portugal
É hoje!
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Setembro 27, 2009 at 9/27/2009 12:01:00 AM.Etiquetas: eleições legislativas 2009, portugal
BELGRADO: o cancelamento da Parada Pride.
3 Comments Published by Sarah Correia on Sexta-feira, Setembro 25, 2009 at 9/25/2009 12:44:00 AM.
Há cerca de um ano, eu e o Max participamos numa Conferência em Belgrado, na Sérvia, sobre segurança humana na região dos Balcãs Ocidentais (ou seja, antiga Jugoslávia e Albânia).
Eu apresentei uma investigação sobre os grupos de jovens de extrema-direira na Sérvia, enquanto o Max fez uma apresentação sobre a situação de vulnerabilidade da minoria LGTB no contexto de sociedades dominadas pelo nacionalismo.
Foi pois com consternação que recebemos a notícia de que a Parada Pride de Belgrado foi cancelada devido a sérias ameaças da extrema-direita sérvia.
A Parada Pride foi organizada pela primeira vez em 2001, alguns meses depois da queda do regime nacionalista e autoritário liderado por Slobodan Milosevic. A Parada foi violentamente atacada por elementos de extrema-direita, que a polícia, mal preparada, foi incapaz de conter. A liderar o ataque estava o recém criado Movimento Patriótico 'Obraz', um grupo classificado como clero-fascista inspirado nas correntes mais nacionalistas da Igreja Ortodoxa Sérvia. O ataque à Parada representou, então, o início da reacção nacionalista ao processo de liberalização da Sérvia.
Desde então, o ambiente político e social na Sérvia nunca mais tinha proporcionado a possibilidade de semelhante evento, mas, com a chegada de um novo governo em 2008, a Sérvia demonstrou um novo empenho na construção de uma sociedade aberta, motivado pelo desejo de uma rápida integração na União Europeia. A mudança de comportamento. Um sinal claro de mudança foi, desde logo, a detenção e deportação de Radovan Karadzic, que durante anos viveu placidamente em Belgrado sob falsa identidade. Outro foi a aprovação, em Março deste ano, de uma nova lei anti-discriminação que veio proíbir qualquer forma de discriminação baseada na orientação sexual ou identidade de género.
O ambiente revelava-se pois, pela primeira vez desde 2001, favorável à realização de uma Parada Pride, à imagem do que acontece um pouco por todas as grandes cidades ocidentais. Importa aqui realçar a situação da comunidade LGTB na Sérvia. O clima de homofobia Prevalece na sociedade um clima de homofobia que condena a quase totalidade dos gays e lésbicas a viver numa quase total clandestinidade. Mesmo aqueles que estão dispostos a enfrentar o preconceito assumindo as suas preferências sexuais, se veem condenados a um estatuto de semi-clandestinidade, uma vez que são sistematicamente alvo de ameaças à sua integridade física, e frequentemente agredidos.
A realização da Parada Pride representaria, pois, um importante sinal de evolução rumo a uma sociedade aberta. Obviamente que os seus inimigos não deixariam de se mobilizar para impedir tal acontecimento, o que por si só atesta da sua importância. Perante o apoio do governo, que assumiu a responsabilidade de garantir a segurança do evento, em nome da liberdade de expressão, os partidos nacionalistas actualmente na oposição realçaram o seu desconforto com o argumento do costume de que os homosexuais não têm nada de andar a exibir-se. Já a Igreja Ortodoxa Sérvia foi bastante mais directa, considerando que a Parada iria transformar a cidade de Belgrado numa espécie de Sodoma e Gomorra .
Nas semanas que antecederam o dia da Parada, as ruas de Belgrado foram inundadas de graffitis e cartazes com ameaças contra o evento, de que a mais reveladora era a frase 'Estamos à vossa espera', pintada nas paredes ou impressa em cartazes da organização Obraz. Os líderes de várias organizações de extrema-direita chegaram mesmo a dar entrevistas onde assumiam claramente a intenção de recorrer à violência para impedir a realização da Parada:
Apesar das promessas de garantir a segurança, na véspera o governo recuou, propondo aos organizadores deslocar a marcha do centro da cidade para um descampado na periferia. A ameaça de violência era bem real. Grupos extremistas planeavam criar o caos na cidade, tencionando não se restringir a atacar a Parada, mas também outros locais, incluindo as Embaixadas de vários países ocidentais que haviam declarado o seu apoio à Parada Pride.
Ao forçar o cancelamento da Parada, o governo sérvio assumiu a sua incapacidade em lidar com a ameaça que representam os grupúsculos de extrema-direita na sociedade sérvia. Desde então, uma série de acções policiais levou à detenção de cerca de três dezenas de membros destes grupos, incluindo o supra-citado Misa Vasic, enquanto surgem diversas vozes a reclamar a ilegalização dos grupos de extrema-direita.
A Sérvia está dotada de serviços de informações eficientes e de uma polícia bem treinada e experiente em lidar com situações de grande violência. Não se tratou, pois, de falta de meios ou de conhecimento para lidar com este tipo de ameaças. Tratou-se de falta de vontade de assumir o apoio à Parada.
Não tendo agido de forma preventiva e, mais do que isso, tendo-se revelado indiferente ou complacente em relação ao compostamento sistemático destes grupos, o governo sérvio perdeu pois uma excelente oportunidade de demonstrar o seu empenho na defesa dos valores cívicos.
Para quem quiser, aqui está o post em inglês que escrevi para o meu blog Café Turco (não se trata de uma tradução do presente texto mas sim de textos independentes).
A palestra do Max, onde ele reaça a correlação entre nacionalismo e homofobia no contexto sérvio pode ser lida aqui, enquanto o meu trabalho, entitulado "Nationalist violence in Post-Milosevic Serbia", será editado em breve como capítulo de uma obra sobre segurança humana.
Etiquetas: balcãs, extrema direita, homofobia, leste europeu, nacionalismo, religião, sérvia
Não basta!
6 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Segunda-feira, Setembro 21, 2009 at 9/21/2009 09:23:00 AM.A contradição que hoje aconteceu torna o assunto insuportável, intolerável e inconcebível: da Presidência saíram ordens para que fosse sugerido em pleno período eleitoral que o Governo de um partido candidato manipula o aparelho policial do Estado para controlar órgãos de Soberania.
Ora, e porque os portugueses não são ingénuos -como bem sabe o Senhor Presidente-, merecemos a mais imediata das explicações. De Belém mas também de José Manuel Fernandes e sua equipa editorial do Público, altamente suspeitos de terem prestado um péssimo serviço à Democracia.
PS: E estas também não chegam.
Etiquetas: cavaco silva, eleições legislativas 2009, imprensa, portugal, PSD
O Tratado de Lisboa, a Irlanda, a Ryanair e Sócrates
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sábado, Setembro 19, 2009 at 9/19/2009 11:29:00 AM.
Próximo dia 2 de Outubro, os cidadãos irlandeses serão chamados novamente a pronunciarem-se sobre o Tratado de Lisboa, já rejeitado pelos mesmos cidadãos em Junho passado. Pelas ruas das cidades irlandesas ecoam já os slogans favoráveis a Lisboa, sugerindo que so assim se acautelará a Irlanda e a Europa.As alterações introduzidas pelo Tratado de Lisboa, recordemos, foram concebidas com o fito de agilizar a máquina burocrática e institucional europeia em face do alargamento rápido que a União testemunhou nos últimos anos. Deste modo, foram aumentadas as competências do Parlamento Europeu, atribuídos direitos de consulta prévia aos parlamentos nacionais de cada estado membro e criada a figura do presidente do pouquíssimo democrático e transparente Conselho Europeu, até agora entregue às presidências rotativas de seis meses a cargo de cada Estado Membro. Mais, o mesmo Conselho que tanta legislação relevantíssima pode aprovar, passa a ter acesso a um largo espectro de políticas passíveis de serem aprovadas por maioria qualificada sem que nada possa ser feito a nível dos Estados Membros.
O essencial da campanha pelo SIM feita por estes dias na Irlanda passa pelo noção de que sem a Europa de Lisboa, o emprego não é possível. Que a qualidade vida dos irlandeses não será a mesma. E que os mesmos serão, em face disso, coercivamente isolados. Trata-se da mesma estratégia (saibamos reconhecer) maniqueísta que tem sido utilizada por todos os políticos europeus de Lisboa a Varsóvia, de Estocolmo a La Valetta, bem capaz de irritar o mais convicto europeísta bastando para tal que este tenha um mínimo de Ética Democrática entre os seus valores.
E aqui chegados, dever-se-á dizer que quem compreenda a urgência de uma Europa diferente não poderá ser menos europeísta do que aqueles que apoiam Lisboa e o seu modelo.
Basta, para tanto, que se atente nos defensores desta Europa.
Numa mise en scéne que juntou a vontade de comer de O'Leary à fome de Sócrates, cada um puxou pela brasa á sua sardinha: Sócrates sublinhou a importância de semelhante investimento e O'Leary fez campanha interna para Irlandês ver para aprovação do Tratado de Lisboa no referendo que se adivinha.
É que se por um lado o facto da abertura de uma base Ryanair ter contado com a presença de um governante de primeira linha causou estranheza na imprensa internacional especializada em aviação, por outro a Ryanair deu início à sua campanha política pelo SIM ao Tratado de Lisboa. Com o beneplácito, naturalmente interessado, de José Sócrates.
Ora, diz a empresa que sem esta União Europeia, nunca teria existido porque o mercado continuaria sempre entregue a regulação e à corporações de empresários e sindicatos de trabalhadores. E, por isso mesmo, investe a empresa meio milhão de euros em propaganda política.
Assim sendo, saibamos reconhecer que O'Leary tem a seus pés um império de 200 aviões que faz já primeiros ministros contactarem directamente com ele apenas e só porque a UE lhe permitiu. E sim, viajamos hoje todos muito mais e mais barato.
Mas há o outro lado, o tal que este modelo também permite. E permite-o, desde logo, a nível doméstico onde no acórdão Ryanair vs Impact o Supremo Tribunal Irlandês negou direito de participação na contratação colectiva aos sindicatos do pessoal navegante. Michael O'Leary impõe, assim e com apoio da Justiça irlandesa, uma importantíssima limitação porquanto admite apenas comissões internas de negociação colectiva.
Um relatório de 2006 da Federação Internacional dos Trabalhadores da Indústria Aeronáutica, por exemplo, acusava a Ryanair de ser uma das piores companhias aéreas para os seus trabalhadores, cobrando-lhes até a àgua que bebem durante o voo e nivelando os seus salários pela média dos salários das suas bases operacionais localizadas em países com salários mais baixos. De modo a escapar a silenciamento dos trabalhadores e à facilidade com que podem e são aparentemente despedidos em caso de contenda, os sindicatos europeus montaram o sítio Ryanair be Fair onde os trabalhadores podem, a coberto do anonimato, denunciar situações de exploração do seu trabalho.
Junte-se ainda, por exemplo,a típica chantagem usada em resposta a qualquer tentativa de uma autoridade ou tribunal em impor a legislação de um Estado Membro. Foi assim, quando ameaçou o despedimento de 2500 pessoas se as autoridades alemãs não voltassem atrás na sua decisão de fechar o aeroporto de Weeze à noite por razões de descanso dos habitantes e foi assim, também, quando a empresa voluntariamente desobedeceu ao Tribunal italiano de Velletri quando este ordenou que a companhia desligasse as câmaras de controlo televisionado instaladas nas salas de pessoal trabalhador.
Esta União permitiu tudo isto à Ryanair e a tantas outras empresas. Não espanta, pois, que esteja tão apostada na aprovação do Tratado de Lisboa.
Etiquetas: irlanda, neoliberalismo, portugal, união europeia
agenda #51
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Setembro 18, 2009 at 9/18/2009 11:19:00 AM.Etiquetas: agenda, cinema, cultura, queer cult
"Ódios de Deus"
1 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Segunda-feira, Setembro 14, 2009 at 9/14/2009 09:34:00 PM.
Um excelente texto de alerta para a realidade pouco noticiada (salvo raras excepções) da única coisa que parece unir as milícias islâmicas no Iraque: a perseguição, tortura e execução de homossexuais. A ler com atenção mais um dos "ódios de Deus".[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]
Etiquetas: blogoesfera, ICAR, iraque, islamismo, médio oriente, religião
da "ingovernabilidade"
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sábado, Setembro 12, 2009 at 9/12/2009 02:57:00 PM.Contudo, não se deverá exagerar nesse anúncio da "desgraça vindoura" nem se permitir que cenários ad metum, destinados implicitamente a co-responsabilizar o indíviduo no ocaso pátrio que se adivinha, caso "ignore" (nas palavras do socialista António Vitorino) o factor "governabilidade". É uma tentativa, sejamos práticos, de pelo Medo obter a confiança de quem outra forma dificilmente lhe daria.
E independentemente de essa poder ser, nos compêndios do marketing político, uma fórmula legítima de captar votos, sempre se deveria dizer, num porventura esforço de pedagogia política e a bem da salubridade do sistema democrático, que o país não só pode ser como é governável por um governo assente numa maioria relativa na Assembleia da República. Basta, para tanto, que exista disponibilidade no Executivo, na maioria que o apoia e na Oposição para o diálogo na procura pontual de entendimentos políticos para a aprovação de cada diploma. E não se diga que tudo o atrás exposto pouco mais será do que "wishful thinking" - basta, para tanto, que exista cultura de exigência e responsabilização política na sociedade portuguesa.
É certo que a experiência histórica recente nos lança fundadas dúvidas dessa possibilidade. Contudo, dever-se-á ter presente as razões de tal apregoada e suposta inviabilidade, algumas delas notoriamente radicadas numa demasiado assente noção de propriedade do aparelho do Estado que a elites de centrismo político português parecem ter, associada ao pulsar revanchista dessas mesmas elites dos partidos do arco governamentalizável e ao recorrente e evidente repúdio popular pela sucessão política e a diferenciação dogmática, numa memória histórica das instabilidades da I República, aliás tão bem explorados pelo Salazarismo durante décadas.
Mas não é nem tem de ser assim.
Etiquetas: eleições, eleições legislativas 2009, portugal, PS, PSD
Deus não existe*
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quinta-feira, Setembro 10, 2009 at 9/10/2009 02:13:00 PM.a razoabilidade da dúvida
4 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quinta-feira, Setembro 03, 2009 at 9/03/2009 09:43:00 AM.
Etiquetas: eleições, eleições legislativas 2009, portugal, TVI
«Mas alguém se convence com um cartaz?»
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sábado, Agosto 29, 2009 at 8/29/2009 10:58:00 PM.
Etiquetas: CDS-PP, eleições, eleições legislativas 2009, portugal
ainda a festa do Pontal: a Política e as raparigas
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Terça-feira, Agosto 25, 2009 at 8/25/2009 08:17:00 PM.
A sempre assertiva Conceição Branco, em editorial do "Observatório do Algarve", de Faro.
Etiquetas: citação, eleições legislativas 2009, links, portugal, PSD, PSD Algarve
o espaço de todas as dúvidas
1 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Agosto 23, 2009 at 8/23/2009 09:46:00 PM.Etiquetas: Bloco de Esquerda, eleições, eleições legislativas 2009, portugal, PS
Da fraternidade em plena U.E...
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sábado, Agosto 22, 2009 at 8/22/2009 03:10:00 PM.- "Bratislava, o Vaticano e a Extrema-Direita" - a extrema direita eslovaca anti-húngara coligada com os socialistas para formar governo; [Devaneios]
- "Um laboratório chamado Bratislava" [Devaneios]
- "alianças suspeitas" [Devaneios]
- "citação desintérica do dia: a Extrema Direita no poder na Eslováquia" [Devaneios]
Etiquetas: eslováquia, extrema direita, hungria, leste europeu, nacionalismo, racismo, união europeia
cartoons: da capitulação da Democracia
1 Comments Published by Max Spencer-Dohner on at 8/22/2009 02:07:00 PM.
Em Julho de 2008, Hannibal Kadhafi, filho do coronel Khadafi, ditador da Líbia, e sua esposa Aline Khadafi, foram detidos por 20 operacionais da polícia criminal helvética em Genebra. Corria, então, inquérito criminal por suspeitas de ofensas à integridade física a duas empregadas domésticas do casal, trabalhadoras na moradia suíça de Khadafi filho. Tendo sido ouvidos por um juiz, o casal foi libertado tendo que pagar uma caução de 300000 euros.
Com Khadafi pai enfurecido, o Governo de Tripoli suspendeu, como forma de represália, as remessas de petróleo para a Suíça, retirou cinco milhões de euros dos bancos helvéticos e passou a recorrentemente paralisar, impedir ou combater os negócios suíços na Líbia e em países africanos onde o Governo da Líbia conseguisse fazer mover as suas influências.
Com a situação de bloqueio a assumir níveis incomportáveis para a Diplomacia económica alpina, Hans-Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, regressou ontem da sua visita surpresa a Tripoli onde ajustou um acordo com o governo líbio: a Suíça abdica do seu direito soberano a julgar crimes alegadamente ocorridos em seu território a favor de um Tribunal arbitral, baseado em Londres e tendo também juízes líbios, que julgará os actos do filho...do ditador líbio. E, como se a humilhação aos cidadãos suíços não fosse já bastante, o Presidente helvético, antes de deixar Tripoli passada sexta-feira, apresentou, ainda e formalmente, as «desculpas do Estado e Povo suíços» pelos actos «desproporcionais e incompreensíveis» dos órgãos de Justiça do país.
Razão tem Burki, no seu cartoon para o diário suíço 24 heures, quando coloca Hans-Rudolf Merz entre tantos dos camelos que se vergam perante ditadores...
devaneios CityBreak: Porto
3 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Segunda-feira, Agosto 17, 2009 at 8/17/2009 09:21:00 PM.

Porto! Desde 10 euros (taxas incluídas), à partida de Faro, em voos Ryanair.
Para outras sugestões do Devaneios, consultar a coluna "devaneios CityBreak" deste blog ou este site.
Etiquetas: devaneios CityBreak, portugal
a agitprop e os radicais da Lapa
3 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Segunda-feira, Agosto 10, 2009 at 8/10/2009 03:20:00 PM.
O marketing blogoesférico atingiu o hoje o seu auge com a destemida e intrépida proto-acção terrorista do Blogue 31 da Armada. Foi "giro" e fez-nos sorrir no boçal entretenimento dos dias quentes da silly season à portuguesa. Mas pequeno, anedótico e suficientemente autista para que não lhe devamos dar mais do que a importância relativa que merece. Nada mais do que agitprop para Lapa ver... ADENDA: Vale a pena ler "Os comunicados do CDS? A indignação dos bloggers de direita? Os comícios de Mário Crespo?", de Daniel Oliveira.
Etiquetas: blogoesfera, monarquia, portugal
autarcas, acusações e presunções
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sábado, Agosto 08, 2009 at 8/08/2009 02:56:00 PM.
Com a condenação de Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, a sete anos de prisão e a perda de mandato ressurgiu na arena pública a discussão de um alegado projecto lei posto na gaveta que prevê a inelegibilidade de cidadãos acusados da prática de crimes como corrupção ou o peculato. Trata-se de uma sugestão muito perigosa, potencialmente inconstitucional, que não deveria ser posta nos termos em que alguns sectores políticos a estão a colocar.Mas vejamos por partes.
Parece por mais óbvio que a legitimidade política de um cidadão acusado ou pronunciado por crimes especialmente graves estará notoriamente posta em causa na sua percepção pública de autoridade, credibilidade e isenção e nas condições para o exercício do cargo político a que se candidata. E sim, a credibilidade das instituições e da vida política sai afectada por isso.
Mas trata-se, antes de mais, de um problema político. E, porque político, na sua resolução devem ser exigidas medidas de natureza estritamente política.
Esteve bem, por exemplo, Marques Mendes quando, sem necessidade de qualquer medida legislativa, afastou das listas das autárquicas de 2005 Isaltino Morais e Valentim Loureiro, entre outros. A coragem e uma determinada compreensão daquilo que deve ser a salubridade política são, nesta temática, claramente identificáveis nessa sua decisão. E, aqui chegados, é por isso que a questão é assaz simples: ou se tem coragem de reconhecer a falta de credibilidade política, assumindo-se decisão conforme, ou não se tem. Marques Mendes teve-a. Manuela Ferreira Leite não.
Assim sendo, é por isto mesmo que a decisão de alterar a lei no sentido acima descrito me parece tudo menos uma questão de arrojo ou coragem política. Antes pelo contrário, os seus objectivos denunciam um facilitismo evidente por parte de quem, por imprudência ou incúria, parece negligenciar princípios basilares do Estado de Direito Democrático a bem de uma solução onde, muito simplesmente, se possa resguardar numa impossibilidade jurídica ao invés de assumir a escolha política de de facto excluir das suas listas eleitorais quem manifestamente se encontrar em estado de duvidosa legitimidade política.
Enveredar pelo trilho traçado significa dar de barato a presunção constitucional de inocência, impondo-se uma limitação evidente de um direito, liberdade e garantia (a de um cidadão se candidatar a um cargo político) por uma mera acusação da prática de um crime de onde poderá a jusante sair inocente. E - nunca demais enfatizar! - essa presunção não existe por distracção ou mero formalismo anacrónico. Trata-se de um reduto essencial da Democracia e do seu Estado de Direito: um indíviduo é havido por culpado uma vez esgotadas e esclarecidas todas as questões que sobre a sua causa. E só então, sim, será admissível que o mesmo seja responsabilizado, sofrendo as consequências que se mostrarem devidas. Mal vamos neste país quando até alguma magistratura judicial mediática parece não perceber isso.
Permitir semelhante orientação legislativa seria conceder um privilégio exorbitante a órgãos potencialmente instrumentalizáveis de impedirem que determinado cidadão se candidatasse a uma cargo público, sem qualquer culpa provada ou assente, assim se corrompendo flagrantemente o ideal democrático. Até porque sempre se dirá que, no enquadramento jurídico actual, um determinado autarca suspeito poderá ver ser-lhe imposta a suspensão do exercício de funções públicas mas como medida coactiva em sede de instrução criminal.
A Demagogia, especialmente quando travestida de honra e asseio político, pode render muitos votos em Época eleitoral. Mas, aos políticos o que é da Política. E à Justiça o que é dela.
da revolução em curso: 50,01% dos votos = 85,4% dos mandatos
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Segunda-feira, Agosto 03, 2009 at 8/03/2009 11:49:00 AM.
"Por exemplo, num cenário polarizado em que só tenham intervenção dois partidos políticos, se uma das formações tiver 50,01% dos votos será beneficiada com 85,37% dos mandatos. (...) Utilizando os resultados das eleições regionais de passado dia 23 de Novembro (chavismo 52,96% e Oposição 47,06%), redistribuindo-os pelos circuitos eleitorais, o PSUV capitalizaria 84% dos mandatos (136 deputados), ficando a Oposição com apenas 28 lugares no Parlamento."Eis a a nova Lei Orgânica dos Processos Eleitorais prestes a ser aprovada na Venezuela.
Etiquetas: américa latina, chavez, venezuela
cartoons: a China e as lâmpadas de eficiência energética
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on at 8/03/2009 01:38:00 AM.[lâmpada de eficiência energética 'made in China' // Entretato, na China...]
A China e a questão energética mundial, vistas por Cam Cardow num cartoon publicado no Ottawa Citizen de Otava.
Etiquetas: ambientalismo, cartoons, china
40 anos depois
3 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Segunda-feira, Julho 20, 2009 at 7/20/2009 09:45:00 PM.
Etiquetas: ciência
o espaço intermédio
7 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Domingo, Julho 19, 2009 at 7/19/2009 07:20:00 PM.
A declaração de voto de Vale de Almeida teve repercussões pela blogoesfera de esquerda fora, lançando um interessantíssimo debate que chegou às caixas de comentários deste Devaneios. As reacções foram inúmeras (Tiago Mota Saraiva no 5dias, Daniel Oliveira no Arrastão ou a acidez de José Guilherme Gusmão no Ladrões de Bicicletas) e tenderam a criticar a orientação de voto evidenciada. Por vezes, até, com argumentos excessivamente 'ad homine'. Mas vejamos por partes.
Há, de facto e como bem nota MVA, um espaço intermédio no presente espectro político-partidário, algures entre o Bloco de Esquerda e o PS. Esse espaço é marcado por uma consciência moderada que compreende, se entusiasma e apoia o esforço modernizador do Bloco de Esquerda e a lufada de ar fresco que aquele partido foi para esta última década da política portuguesa. Que reconhece a frontalidade bloquista na defesa da Interrupção Voluntária da Gravidez, na luta contra a corrupção, o nepotismo e injustiça generalizada ou, por exemplo, no combate sem tibiezas à Homofobia. Mas este espaço intermédio apresenta-se plástico, móvel e sobretudo livre, liberto de vínculos e elos partidários, recusando à partida qualquer pertença partidária neste espectro político. É assim, e por isso, que este espaço intermédio aprecia, também, os passos que o PS esporadicamente enceta buscando, algo desorientadamente é certo, um regresso à Social Democracia; Que compreende e saúda o empenho na reformulação das políticas de energias alternativas pela mão dos socialistas, rumo a uma sustentabilidade energética mais verde; Que suspira de alívio com o travão colocado pelo PS à privatização da Segurança Social; que admira o caminho aberto na renovação dos serviços públicos, dignificando-os, modernizando-os e enaltecendo as suas funções; e que saúda, ainda que lamentando o atraso, a decisão libertar divórcio de moralismos já desconexos da realidade emocional das famílias portuguesas.
Mas este espaço intermédio nota, porque observador livre, a demagogia a que, por vezes, se entrega o aparelho bloquista. Não vê com bons olhos a recusa absoluta de viabilização de uma alternativa governativa de Esquerda ao possível regresso de Manuela Ferreira Leite em compadrio com Cavaco Silva na Presidência, prometendo "rasgar" (sic) todas as políticas sociais. Recusa a irracionalidade de soluções que procurem tirar Portugal da NATO e o clubismo bolorento que quis compreender a brutalidade das acções de um Kremlin cada vez mais totalitário.
Mas esta "consciência do meio" também não gosta da malha tentacular de interesses que o aparelho socialista não pôde, não soube ou, porventura, não quis combater. Não compreende a falta de ímpeto reformista quando existe uma maioria política confortável, repugna a leviandade e a irresponsabilidade social das reformas laborais, despreza o maniqueísmo político e a partidocracia e enoja-se perante o silêncio da resposta ao Homofobia evidente do IPSangue, não se deixando, no entanto, espantar porquanto na sua memória ainda estão as declarações acerca deste tema proferidas, ainda há uns meses atrás, pelos deputados socialistas: "Não há discriminação, apenas precaução"...
Assente o que acima se disse, reconheça-se que a escolha é difícil para esta esquerda de enclave, cercada e deixada sem grandes hipóteses. Deixemo-nos, pois, de maniqueísmos (como alguns que por aí se leram nos ultimos dias) pois que razões assistem, em teoria, a estes desalinhados para votarem num ou noutro. E, assim sendo, reconheça-se a Miguel Vale e Almeida o devido crédito de ter exposto, de forma aliás brilhante, os paradoxos que afrontam este "espaço intermédio". Classificá-lo de "agenda de um só tema" é contraproducente quando, aliás, se afigura tão pouco presente na sua exposição de motivos da orientação de voto o tema do Casamento Civil entre homossexuais.
Decerto, MVA representará as linhas com que se cose e compreenderá a instrumentalização que o assunto homofobia sofreu nas mãos de um Partido Socialista, incapaz de reconhecer em devido tempo direitos fundamentais de uma minoria. E, por isso mesmo, parece-me óbvio que as suas razões serão bem mais vastas do que a agenda LGBT.
Deste modo, compreendo a 100% as dúvidas que plasmou no seu "Os Tempos que correm".
Não obstante, em consciência considero que há uma estratégia evidente de desacreditação dos flancos por parte do Bloco Central partidário, buscando espalhar a noção de que as alternativas não são verdadeiramente alternativas.
Se, conforme referido na caixa de comentários deste Devaneios e no que toca à matemática eleitoral, isso pode ser verdade, não é menos verdade de que só a pressão política de determinada agenda fará o bloco central partidário português compreender a urgência de uma nova política social democrata, de transparência, rigor e responsabilização. Exigente, de qualidade, moderna, atenta e proactiva. Compreendo muito bem, e em certa medida sufrago o entendimento de quem me diz ser importante assegurar uma maioria de Esquerda em face do que potencialmente se adivinha. Mas não consigo, em consciência, livre, render-me à tentação do Medo e à chantagem do devir.
Etiquetas: Bloco de Esquerda, eleições, eleições legislativas 2009, PS, sócrates
da presunção de promiscuidade
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Julho 17, 2009 at 7/17/2009 07:49:00 PM.
Ovelha Rosa. Já online!
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sábado, Julho 11, 2009 at 7/11/2009 05:27:00 PM.Um dia, num autocarro do Alabama, uma mulher não se levantou para ceder o seu lugar. Entendeu, na clareza nítida de um instante tornado histórico que a sua dignidade de ser humano não se vergava perante os ditames de uma maioria porque, pura e simplesmente, maioria. Na lucidez anunciadora de uma nova Era, a senhora que, por ser negra, costumeira e juridicamente estaria, à partida, obrigada a entregar o seu lugar a quem tivesse sido agraciado com a genética branca de uma maioria pálida de falta de vergonha, permaneceu exactamente onde estava.
E recusou ceder. Negou sufragar os entendimentos de quem não compreendia a História. E, com ela ali sentada, levantaram-se tantos que de um regato se fez um Rio e de um Rio se fez um Mar de ansiosos por Justiça.
E Liberdade.
Ser activista de direitos cívicos é transportar em nós algo de Rosa Parks. É não entender, compreender, aceitar ou conceber que determinado individuo possa ser reduzido, menorizado, menosprezado porque, tão simplesmente, diferente. É negar as amarras de um atavismo que nos prende e propositadamente nos quer impor a fatalidade inabalável da coisas como elas são.
Ser activista dos direitos LGBT é, naturalmente, assumir a defesa de uma causa que é, acima de tudo, humanitária e cívica.
É afirmar, à luz clara de um dia que também se fez para nós e com um orgulho que é desenvergonhado e despretensioso, o advento de uma nova Era em que não cedemos a ninguém o lugar que também é nosso nesse autocarro da Liberdade.
[Foi este o meu modesto contributo para o novo Portal Ovelha Rosa. Activismo, visibilidade LGBT, política, viagens, encontros, consultórios jurídicos e médicos, cultura, shopping...tudo num projecto para todos e com todos, ao qual desejo as melhores felicidades.]
[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]
Calma, não é assim tão fácil...
13 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quarta-feira, Julho 08, 2009 at 7/08/2009 10:33:00 PM.
A vitória (aliás, pouquíssimo sápida...) do PSD nas eleições europeias 2009 teve o condão de revelar alguns sentimentos afundados no aparelho social democrata. De entre os mais óbvios, destaque-se o pulsar revanchista das elites do partido, que nunca lidaram muito bem com o fardo de serem Oposição, quanto mais assumi-la com seriedade e competência.Sente-se, nessas mesmas elites com acesso privilegiado a crónicas, colunas, comentários televisionados e blogues de grande audiência, a euforia de quem e adivinha Poder, de quem pugna um ajuste de contas. De quem procura, quase que por mero aparelhismo, um volte face de políticas que risque as soluções até agora propugnadas e regresse às outras sabidas igualmente ineficazes, quando não mesmo socialmente terroristas.
À cabeça, numa claridade tão impoluta quanto estudada, esse mesmo aparelho, numa incapacidade angustiante de se regenerar, apresenta-nos Manuela Ferreira Leite como modelo daquilo que Portugal deverá ser. Uma "política de verdade" que, na verdade das coisas, mais não faz do que espicaçarmo-nos a regressar às mentiras, velhas de anos, que nos têm oferecido.
E a aposta, a força motriz colocada na imagem de seriedade e rigor... Essa coisa salazarenta, pegajosa e recorrente que é a figura paternal da sobriedade, rigor e ausência de palavras. O quantum implícito de saudosismo salazarista, que se dá e vive bem com a não expressão de qualquer ideia política digna de seu nome, que galvaniza as Direitas, neutraliza as Esquerdas e que espreita sempre que o Povo se embala na Demagogia política vigente.
Mas é preciso mais. No deserto político que é este PSD, a proximidade do Poder pode ser tão somente a miragem de um óasis. O pulsar nervoso de quem se estica para chegar lá, para ter o poder e dele fazer o que se lhe aprouver durante 4 anos, pode ser imensamente contraproducente. A ausência de um projecto sério não se pode bastar com o galvanizar do descontenatamento e do desmérito socrático. Até porque, digam o que disserem os analistas políticos, são as maiorias amorfas, politicamente analfabetas, pouco sensíveis a querelas ideológicas ou de estilos, que dão e tiram maiorias. E no jogo da pesca dos descontentamentos desse imenso cardume, o PSD deixou de estar sozinho. E isso, podendo parecer que não, ajuda Sócrates.
PS: Acerca de MFL, vale a pena acompanhar a campanha “Sei o que fizeste no governo passado", no blogue O Valor das Ideias...
Etiquetas: campanha eleitoral, eleições, eleições legislativas 2009, Manuela Ferreira Leite, PSD
Honduras, à antiga...
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quinta-feira, Julho 02, 2009 at 7/02/2009 07:51:00 PM.
Manuel Zelaya não era, de facto, o mais aconselhável dos presidentes. Populista e demagogo q.b., com rasgos autoritários (sobretudo no seu relacionamento com os media hondurenhos, impondo aos mesmos horas diárias de propaganda pró-governo), o presidente deposto das Honduras vinha cultivando uma proximidade dogmática do Chavismo em tudo o que isso tem de mau.Contudo, era e é o presidente democraticamente eleito por um Povo soberano. A escolha que fizeram os únicos que, para isso, tinham poder. E é tão simplesmente por isto que o golpe de Tegucigalpa é tão assustador. É que, pelos vistos, basta uma simbiose muito ténue entre os desígnios de uma elite judicial pouco digna desse nome e as prepotências de militares pouco escrupolosos para termos um golpe à antiga: com suspenção de liberdades constitucionais, detenções arbitrárias sem julgamento e perseguição de oposicionistas. Aterrador, sobretudo se quem o faz o leva a cabo em nome da Democracia...
cartoons: os amigos de Madoff
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on at 7/02/2009 07:28:00 PM.
Um entre tantos. A prisão de Madoff, vista num cartoon de Signe Wilkinson publicado há dias no Philadelphia Daily News dos EUA.Etiquetas: cartoons, crises, eleições EUA
time out
1 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Junho 12, 2009 at 6/12/2009 11:28:00 PM.
Ausente, por alguns dias, algures onde as cores, por estes dias, brilham mais que nunca. Entretanto, a sarah que mantenha o estaminé :). Até já!
Etiquetas: EUA, interrupções, viagens
mais outro que se escapa...
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Quinta-feira, Junho 11, 2009 at 6/11/2009 11:21:00 PM.
...da Justiça que todos merecíamos: Omar Bongo morre sem nunca ter enfrentado qualquer julgamento, deixando para trás um país com um PIB equivalente ao de Portugal mas com uma das mais elevadas taxas de mortalidade infantil.
Obrigado!!
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Terça-feira, Junho 09, 2009 at 6/09/2009 10:14:00 PM.Obviamente que me junto ao agradecimento do Hélio! O primeiro jantar da blogoesfera LGBT foi, no mínimo, interessante, bem disposto e simpático. As caras, que se passaram a conhecer, as personalidades e traços psicológicos que se viam nos ecrãs e agora diante de nós, as amizades que se traçaram, as parcerias que se delinearam, a troca de ideias... a comida - excelente!-, o espírito comunitário...foi, quanto a mim, giríssimo.
A agradecer, também, o emepnho da ILGA ao apadrinhar este jantar, fazendo-o incluir na sua programação e fornecendo um espaço simpático e de Liberdade como é o Centro Comunitário LGBT, na São Lázaro.
Para o ano há mais! Obrigado a tod@s!
Etiquetas: blogoesfera, homofobia, portugal
"nós não queremos gastar o dinheiro na Roménia ou em Portugal"
2 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Junho 05, 2009 at 6/05/2009 11:33:00 AM.
“Nós enviamos uma mensagem forte que não queremos gastar o nosso dinheiro na Roménia ou em Portugal, mas aqui na Holanda. Não aceitaremos nunca a Turquia na União Europeia e não queremos uma União transformada em super estado. Há muita gente contra este governo e nós somos uma forte e positiva alternativa.” O Partido para a Liberdade do Povo Holandês foi o segundo partido mais votado nas eleições para o Parlamento Europeu na Holanda. O seu posicionamento depreende-se das palavras supra transcritas.
Só deverá espantar os mais incautos. Senão repare-se...
No Reino Unido grande parte das sondagens levam a crer que o UK Independence Party (direita conservadora e eurocéptica) poderá ultrapassar o Labour Party (centro-esquerda e no governo) tornando-se 2ª força política. E o ultra-racista British National Party deverá também, segundo as mesmas sondagens, subir alguns pontos e, porventura, conseguir um eurodeputado.
Em França, a Front National deverá manter a sua votação.
Em Itália, a coligação "Povo da Liberdade" de Berlusconi, de cujas fileiras faz parte a fascista Liga do Norte, deverá aumentar a sua votação, ganhando até mais 6 eurodeputados.
Na Áustria, o extremista Bündnis Zukunft Österreich (BZÖ) do falecido Jorg Haider e o conservador populista Freiheitliche Partei Österreichs (FPÖ) deverão ganhar, pelo menos e cada um, mais um eurodeputado em Estrasburgo. A campanha dos ditos girou em torno da necessidade de consagrar o Oeste ao Cristianismo.
Em Praga ainda se sentem as ondas de choque da promessa eleitoral do Partido Nacionalista Checo: arranjar uma "solução final" para os ciganos, mandando-os para a Índia. Pelo sim pelo não, recorde-se que este partido criou, em 2007 e "para ajudar nas tarefas públicas do Estado", a sua própria força paramilitar. Poderão, a fazer fé em algumas sondagens, eleger um eurodeputado.
O Jobbik Magyarországért Mozgalom, movimento por uma melhor Hungria, deverá conseguir o seu primeiro eurodeputado. Algumas sondagens de jornais de Budapeste sugerem até a possibilidade de virem a ser dois os lugares conseguidos. Além da mensagem xenófoba e profundamente homófoba, os apoiantes do "Jobbik" são conhecidos pelas suas camapnhas de "evangelização moral" espalhando cruzes pelo país ou pintando "ZP" em edifícios/sedes de associações/instituições que considerem ser ameaças à Moralidade húngara.
O АТАКА búlgaro deverá, segundo as últimas pesquisas eleitorais, manter os seus 3 eurodeputados. Almeja, no entanto, chegar aos 4 fazendo fé na sua pesada campanha anti-Turquia na UE.
Em suma, os partidos de extrema direita conseguirão capitalizar, em toda a Europa e a fazer fé na média das sondagens publicadas, mais 15 a 20 lugares no Parlamento Europeu.
As forças radicais de Direita estão muito mais poderosas e mais bem organizadas do que alguma vez estiveram. Prova disso é, por exemplo, o marketing político comum que utilizam: o famoso cartaz das ovelhas brancas que expulsam as ovelhas negras tem sido utilizado por todos os estes partidos, do português PNR ao suíço SVP, passando pelo Jobbik húngaro.
A crise que favorece os lugares comuns e a a retórica típica destes movimentos, abre-nos a porta ao radicalismo.
Urge que o percebamos. E o combatamos.
Não faltemos domingo.
Etiquetas: bulgária, eleições, eleições europeias 2009, extrema direita, frança, holanda, hungria, racismo, reino unido, república checa, união europeia, xenofobia
transparência e culpa
0 Comments Published by Max Spencer-Dohner on Sexta-feira, Maio 29, 2009 at 5/29/2009 10:35:00 PM.
A recente inflexão política de Obama no que toca à (não) publicação de novas fotos sobre abusos ocorridos no Iraque poder-se-à revelar, ao contrário daquilo agora propugnado pela Casa Branca, extremamente contra-producente.
Barack Obama tem tentado travar a publicação das imagens com o fito de minimizar o impacto das mesmas no sentimento antiamericano que a Guerra do Iraque fez alastrar por todo o mundo.
Pelo caminho, a imprensa especula e avança a existência de novos e (ainda mais) bárbaros abusos, não raramente detalhando, por exemplo, pormenores de abusos sexuais de civis iraquianos por parte de membros do exército norte-americano.
A vontade de Obama pode ser a melhor e mais bem intencionada. Revela, é certo, aquela que parece ser a sua tendência, ao contrário de todos os que lhe suspiravam utopia e lirismo: o novo presidente norte-americano avança na paradigmática real politik.
Mas, no caso presente, não chega.
A reposição da Justiça sonegada implica uma expiação política ao mais alto nível. Obriga ao reconhecimento pleno dos erros cometidos, ao julgamento e à punição dos seus autores. Pública e notoriamente.
A tentativa de não mostrar provas para não fazer crescer o sentimento anti-americano pode obter justamente o seu contrário, ao possibilitar interpretações na base das quais a Administração Americana poderia estar a esconder "o pior" e a "proteger criminosos". Sobretudo quando, à mercê dos problemas políticos no Senado, a Administração parece estar a voltar atrás com encerramento de guantanamo, reconhecendo agora, numa linguagem de tibiezas, a possibilidade de alguns juízos criminais militares virem a manter-se naquele local de Infâmia.
Etiquetas: guantanamo, iraque, médio oriente, Obama, terrorismo

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