«dir-me-ão que o problema é apenas de uma minoria, mas quero dizer o seguinte aos camaradas: o reconhecimento dos direitos e da dignidade de uma minoria é a vitória de todos»
Bonitas palavras as de Sócrates. Mas o que levou os mesmos socialistas que há três meses consideraram não ser oportuno reconhecer direitos fundamentais a uma minoria a assumir, agora, a necessidade de "pugnar por uma sociedade mais igualitária"? Que debate foi esse que há poucas semanas não "tinha ainda existido no país" e que, de repente, já foi feito? Porque não era esta uma questão essencial em Outubro de 2008 e agora, em Janeiro de 2009, passou a ser aquela "da liberdade, da igualdade, da dignidade individual e da luta contra todos os tipos de discriminação".
A Política tem esta faceta. Uma malha tentacular de hipocrisias de memória curta que, de forma às vezes tão notoriamente surreal, embala sociedades inteiras no pântano moral que são (quase sempre) os comandos da Polis.
E, assim sendo, sejam pois lindas as palavras de Sócrates. Que ecoem fluídos as suas pugnas "pela Igualdade e contra a Discriminação". Empenhos novos de um Partido Socialista que num passado bastante recente foi capaz de uma Lei de Procriação Medicamente Assistida que afastou mulheres não casadas, ou casadas há menos de dois anos, de tratamentos médicos de fertilidade, embargando-lhes direitos reprodutivos e afectivos de forma gratuita, não fosse alguma delas desejar essa coisa tão vanguardista de ser mãe solteira sem a protecção de um homem.
Ou pior....ser lésbica.
Um Partido que ainda há poucos dias, pouco antes de se tornar tão progressista e liberal, afirmava desavergonhadamente que a dificuldade dos homossexuais na doação de sangue não era uma "discriminação, apenas precaução" .
Canto novo este o de Sócrates que certamente embalará os mais incautos.
Entretanto, saibamos, não obstante, aproveitar aquela que é, inegavelmente, mais uma grande vitória do movimento LGBT português. O caminho está, agora, plenamente delimitado. E, talvez como nunca, o sonho de mais Igualdade e de mais Felicidade parece, agora, possível.
À frente de todos aqueles que têm vindo a lutar por isto está ainda um percurso bastante sinuoso. As eleições são, reconheçamos, uma incógnita. Por outro lado, desconhece-se ainda a reacção de poderosos sectores da sociedade, até ao momento tão silenciosos - a Igreja Católica, por exemplo, não pode ser menosprezada e - as últimas eleições espanholas atestaram-no - pode vir a ter a pretensão, em face destes desenvolvimentos, de abertamente interferir na campanha eleitoral portuguesa. Saibamos, com elevação, seriedade e calma aguentar as ofensas, o obscurantismo e a irracionalidade das comparações com zoofilia, pedofilia e demais aberrações que aqueles que se nos opõem, em desespero, gritarão aos quatros ventos. Antecipemos e combatamos o menosprezar da causa em face da linguagem da crise, sempre pronta a servir de ratio última de união da pátria em torno de propósitos únicos pouco dados a temas alegadamente fracturantes. Evitemos a tentação das soluções de segunda que espíritos "bem intencionados" nos tentarão, certamente, oferecer.
Unamo-nos no cobrar desta promessa. E aí algures, afinal bem próximo, encontraremos a Liberdade.
[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT ]