Sábado, Fevereiro 28, 2009

cartoons: a fé em Deus

A questão dos slogans dos Autocarros Ateus de Londres, Madrid e Barcelona chegou já à imprensa canadiana, adaptada para a questão do desemprego galopante por este cartoon, publicado no Ottawa Citizen de Otava.

Ainda a propósito dos ditos autocarros, tem interesse o cunho 'moderado' do artigo do Padre Anselmo Borges "Autocarros Ateus e Cristãos", publicado hoje no Diário de Notícias.

Sábado, Fevereiro 21, 2009

A laicidade do Estado e o óleo das frituras do peixe

Via Twitter do Devaneios, chega-me o seguinte comunicado oficial da Presidência da República:

"O Presidente da República congratula-se, em nome de Portugal, pela notícia da decisão tomada hoje no processo de canonização de D. Nuno Álvares Pereira, figura maior da nossa História, que, no passado como no presente, deve inspirar os Portugueses na busca de um futuro melhor."

Falar em nome de Portugal quando se fala de misticismos associados a queimaduras causadas por óleo de frituras de peixe é, pura e simplesmente, abusivo, revelador de um considerável desrespeito pela dignidade democrática da República e - sim, por que também o é! - particularmente provinciano.

1 ano de Café Turco

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

cartoons: "provavelmente, Deus não existe"

[No casco: "Provavelmente Deus não existe. Agora, deixa de te preocupar e aproveita a Vida".]

Cartoon do Diário El Mundo, de Madrid, acerca do naufrágio de imigrantes clandestinos envolto em mistério onde morreram 19 pessoas a apenas 20 metros das Canárias, fazendo referência à campanha do Autocarro Ateu, já presente em algumas cidades europeias.

o ritmo dos dias

Este Devaneios anda nitidamente em "subpostagem". O tempo acelera e torna-se invisível à medida que os dias passam. Os prazos daqueles recursos que pesam a consciência há dias, os telefones que tocam, os tribunais que se perdem nos quilómetros percorridos, os papéis amontoados na secretária, os amigos que pugnam pelos seus minutos...e a família que a Igreja Católica diz que eu não tenho. Tudo unido para evitar o silêncio de calma que um blog precisa. Sair do mundo real e enfrentar o virtual onde tudo se desenvolve tão depressa, insistindo no acompanhamento do que se vai passando torna-se, assim, um difícil exercício.

Contudo, é engraçado notar como, nesta sucessão de instantes que é blogoesfera, o texto que há uma semana aqui escrevi está ainda actual em face daquilo que, por estes dias, se vai escrevendo nos blogues e imprensa online.

Confesso-me contente com tudo isto a que venho a assistir. O debate do casamento civil entre homossexuais está implantado na sociedade portuguesa de forma irreversível. O Devaneios tem feito parte de um grupo de blogues que de há muitos anos para cá insistem em manter o assunto vivo. Esse esforço que cada um de nós fez à sua medida para impor o que muita gente preferia ignorar e menosprezar, conseguiu a situação presente em que o tema se tornou intorneável. Pelo caminho, desvendam-se ódios mas também se fazem promessas que serão, a devido tempo, cobradas.

Há um estranho contentamento - pronúncio de Felicidade conseguida? - na maneira como encaro o que por aí se escreve. A maré finalmente inverteu e a sensação que vinha tendo nos últimos anos de isolamento do Devaneios e demais blogues que, neste tema, e - passo o belicismo- nunca baixaram a guarda, desapareceu por completo.

Na Tv, na imprensa escrita e nos blogues levantam-se as vozes costumeiras do Obscurantismo, sempre apostadas na gratuitidade do Ódio. Mas um pouco por todo o lado aparecem excelentes espíritos, apostados na racionalidade dos melhores argumentos políticos, sociais, culturais, psicológicos, jurídicos, antropológicos... crentes cegos de um Humanismo que nada mais segue senão a Liberdade de todos.

E, perante isso, talvez o Devaneios não tenha muito mais a acrescentar por estes dias. Depois de anos de argumentos, vale a pena agora admirar com serenidade tudo o que de bom por aí se escreve:

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Garras de fora

A notícia era algo previsível: a Igreja pode apelar ao voto contra partidos que apoiam casamento entre homossexuais. Como diz Luís Grave Rodrigues, e bem, «os bispos portugueses deixaram bem claro que acham que devem ser eles a determinar não só já o Direito Canónico, o seu Catecismo, o tamanho das hóstias ou as músicas que se cantam nas missas, mas agora também a forma como são definidos e legalmente regulados alguns dos contratos tipificados no Código Civil.». Bem como a noção constitucionalmente relevante de Família, acrescento eu.

Nestas coisas, e embora subscreva por inteiro as palavras do citado blogger, aqui confesso que já vou perdendo a paciência para rebater os argumentos da . Que a interferência óbvia em assuntos absolutamente seculares é notória e abjecta, todos sabemos. Que a hipocrisia é latente e despida de qualquer pudor, todos notamos. Que a ICAR se atreve a arrogantemente estabelecer o que é Amor relevante e o que não é entre duas pessoas humanas, choca qualquer pessoa minimamente inteligente.

Prefiro congratular-me, isso sim, por virem, finalmente, a jogo.

O que - convenhamos - os revela acossados e dispostos a desfilarem os seus usuais critérios de Ódio travestido de tolerância cristã e Amor ao próximo. Espanta-me, no entanto, que a Igreja Católica Portuguesa inicie guerra aberta. Não por, como diz Miguel Vale de Almeida, não ter a ICAR lusa tal implantação institucional forte que a espanhola tem, designadamente ao nível do ensino. Mas sim porque a sua genése e afirmação cultural é algo diferente da dos nossos vizinhos. A ICAR portuguesa aprendeu, com o Salazarismo, as malhas mudas dos interesses pequenos, provincianos mas identicamente eficazes. Aliou o Saber milenar de quem resistiu a reis, imperadores, ditadores e revoluções à pequena dimensão da dimensão lusa. E encontrou o seu lugar - mais vezes cerimonial do que efectivo - numa certa blindagem ética que o português médio ainda lhe reserva e consagra.

Enleada nessas malhas morais, esperava - e aqui já sigo as ideias de MVA- que usasse dessa sua "pequena" presença - estratégia tão notória no último referendo ao Aborto- para assegurar aquilo que verdadeiramente lhe interessa.

Parece, ao invés, optar pela estratégia falhada do cardeal espanhol Rouco Varela de oposição aberta aos desígnios seculares do estado. Esperemos, a bem dos Direitos Humanos, que tenha idêntico Fado.

[cartoon de Ann Telnaes publicado no The New York Times]

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]

Sábado, Fevereiro 07, 2009

o novo Eixo

Em poucas semanas de reinado, Obama já recebeu novas de Moscovo. Se por um lado a Rússia de Putin assegura a sua colaboração nos esforços de pacificação mundial, manifestando até vontade de aderir ao Plano Obama de redução de arsenais nucleares, por outro lado não frena os seus esforços de incemento do seu poderio geopolítico.

A última mensagem enviada por Putin/Medvedev foi clara e fez-se sentir numa Washington ainda em comemorações de uma nova geração de políticos e políticas: o governo de Bishek anunciou o encerramento da importantíssima base aérea norte-americana de Manaz, no Quirguistão. O presidente Kurmanbek Bakiyev, que subiu ao poder na sequência da Revolução das Tulipas que depôs o ditador pró russo Askar Akayev, mas que também não revela particular vontade de sair de lá, anunciou que o despejo dos americanos nada tem a ver com simultânea ajuda financeira do Kremlin ao país, cifrada em cerca de 2500 Milhões de dólares.

A Rússia que, oficialmente, se diz "preocupada com a situação de ruptura geopolítica no Afeganistão e com concomitante ameaça para a sua segurança regional" consegue assim que os americanos, principais actores no teatro bélico, fiquem sem o seu mais importante ponto de passagem para o Afeganistão. Com um estilo tão cínico quanto diplomata, Moscovo anunciou agora "deixar" que a NATO abasteça as suas tropas no Afeganistão através de território russo.

E, como se não bastasse, reuniram-se há dias na capital russa os governos da Bielorússia do ditador Lukashenko e de todos os membros da Organização do Tratado de Segurança Colectiva, constituída pela Arménia, Cazaquistão, pelo Uzbequistão do tirano Islom Karimov, pelo Tadjiquistão do totalitário Emomali Rahmonov, Quirguistão, pelo Turquemenistão do sanguinário Saparmurat Niyazov e Rússia, decididos a renovar a força política e militar até agora mitigadas do Tratado assinado em 1992 em Tashkent.

Assim sendo, ajustaram aqueles insuspeitos governos criar uma força militar de reacção rápida, assumidamente contraposta à NATO, directamente financiada por Moscovo e que prevê estabelecer a breve trecho um sistema comum de misséis anti aéreos.

Resta apenas sublinhar que o historial e natureza dos membros deste novo Eixo é conhecida, por exemplo, por qualquer rápida consulta aos sítios da Human Rights Watch, da Amnistia Internacional ou da Federação Internacional de Helsínquia para os Direitos Humanos. E para bom entendedor meia palavra basta.