Quarta-feira, Abril 29, 2009

bloco central, pactos de regime, cooperações estratégicas, estabilidades dinâmicas e outros apelos ao silêncio

João Cravinho, deputado do PS, veio hoje proferir os seguintes dizeres:

«A solução de Bloco Central não tem muita coisa que a recomende. Perante a crise, o problema pode vir a tornar-se praticamente inevitável(...)o mais provável é que, de facto, se caminhe para um Governo PS-PSD, em função da necessidade de estabelecer uma política de ataque e de reacção à crise muito forte»

Eis-nos chegados àquilo que, de mansinho, se vem instalando na sociedade portuguesa. O consenso. Faltava só mesmo a crise para o consagrar. vem, aliás, dando o mote há anos, da sua boca saíndo toda uma panóplia de sinónimos para o silêncio que deseja: de "cooperação estratégica" à "estabilidade dinâmica", dos "pactos de regime" ao repúdio constante por tudo aquilo que traga debate à sociedade portuguesa. Ora, é por todos sabido - aliás, como incessantemente tenho escrito neste Devaneios - que o sacro caminho para a Felicidade Plena do País, visto de Belém, não comporta qualquer cisão. Nem qualquer diferenciamento, opiniões alternativas ou altercações.

É preciso, contudo, tornar evidente o caciquismo político que este posicionamento presidencial denuncia.

Em primeiro lugar, diga-se que o dito caciquismo político tem muito da pesada influência salazarista de décadas de ditadura mas é, saibamos reconhecer, bem anterior a isso. Nota-se, por exemplo, em Eça de Queirós ou Júlio Dinis. Existe, é certo, uma desconfiança constante transversal à sociedade portuguesa face ao aparelho político e à necessidade de discórdia, dissonância e debate. Em sua "Carta aos Eleitores do Círculo de Cintra" de 1858, Alexandre Herculano formula numerosíssimas críticas aos partidos e, por extensão, ao Estado liberal, evidenciando a sua desconfiança pelo sistema partidário. Por outro lado, autores como António de Serpa Pimentel (Questões de Política Positiva, 1881) ou Augusto Fuschini (O Presente e o Futuro de Portugal - 1899) atentaram recorrentemente na ausência de uma base cultural propícia ao desenvolvimento das verdadeiras instituições liberais, denunciando não raras vezes a corrupção política do aparelho político dos partidos que se sucediam no Poder.

É certo que poderá ser dito que estes eram tempos singulares, de uma particularidade histórica evidente; Mas, não será menos rigoroso considerar que neste primórdios reside grande parte da origem da actual desconfiança no sistema partidário.

O Salazarismo soube, tão-simplesmente, compreender e sintetizar essa desconfiança, promovendo o consenso e a mansidão como essenciais a uma determinada visão de Patriotismo. O repúdio popular pela sucessão política e a diferenciação dogmática é evidente. São recorrentes as vozs públicas que, na rua, acreditam ser "impossivel governar um país que muda de politicas em cada 8 anos, porque de cada vez que chega um novo governo destrói-se o que está feito pelo seu antecessor".

É neste contexto que a actual Sociedade Portuguesa parece ainda pronta a deixar-se seduzir pela política do Silêncio. A classe política é vista como incompetente (não obstante poder, de facto, sê-lo) o que, aliado à circunstância de, na percepção pública, "raramente se entenderem uns com os outros", poderá ser tremendamente perigoso e lesivo da salubridade democrática.

Aqui chegados, a linguagem da crise constantemente utilizada fará percorrer os trilhos ainda necessários para que as conclusões que alguns parecem tomar se tornem evidentes para todos: não precisamos de dissonância; "A crise" justifica "a responsabilidade de esses senhores se entenderem e governarem juntos", dando-se assim por adquirido a necessidade dos consensos em face da sugestão terrível do pesadelo, da vertigem, do declínio da Nação em face da crise. Algo que, nesta lógica, o verdadeiro patriota procurará evitar. É, convenhamos, Appeasement pelo Medo.

Junte-se à defesa desta solução os usuais beneficiários do Clientelismo do Regime, e aí temos o advento dos Consensos bafientos e acríticos, como todos aqueles que estão na base das inércias, atrasos e subdesenvolvimentos endémicos deste país.

Domingo, Abril 26, 2009

cartoons: gripe suína

Com a a situação já próxima da paranóia (Portugal incluído), vale a pena dar uma vista de olhos por este cartoon de Frederick Deligne, desenhador do diário francês Nice-Matin. O bem disposto cerco de porcos mexicanos ao forte de Pork Alamo, em alusão à aparente origem mexicana da maleita, pretende fazer referência ao episódio histórico norte-americano do cerco mexicano ao Forte Alamo, no Texas. Alamo, que havia sido fortaleza do poder colonial espanhol, foi capturada em Fevereiro de 1836 por rebeldes texanos - colonos norte-americanos -posteriormente quase todos mortos por forças mexicanas ao cabo de um cerco de 2 semanas.

Sábado, Abril 25, 2009

35 sobre o 25

35 anos volvidos, mais do que partidarizar as conquistas ou desfazer os seus feitos inaugurando Largos salazarentos, cumpre reinventar e reconceber Abril.

Repensar, reponderar e reafirmar o seu espírito.

Limpar, expurgar e depurar a sociedade portuguesa dos seus atavismos, corrupções e moralismos fétidos de décadas de pequenez induzida.

Rasgar, dilacerar, romper as amarras que ainda nos prendem e limitam a "esta pequena dor à portuguesa, tão mansa quase vegetal" .

Reafirmemos Abril contra todos os lodos, pântanos e lamaçais onde soçobram os direitos e as garantias e se reinventam discriminações, injustiças, iniquidades e arbitrariedades travestidas de Modernidade e Progresso. Viva Abril!

Sexta-feira, Abril 24, 2009

Da tipificação criminal...

Depois de há uns dias termos tido a “execução” efectuada por “um dos gays”, chega-nos hoje o brilhante "O travesti e o comerciante chinês: a história do segundo homicídio gay no país em três dias". Mas...e os outros assassinatos...são "homicídios heteros"? Estava aqui a pensar...haverá um crime de abuso de confiança fiscal gay e outro hetero? Estilo..."o gay desviou as verbas do IVA"... Ah! E uma condução com álcool gay e uma condução com álcool hetero??? O "gay foi inspeccionado quando conduzia com uma TAS de 2,36... Não...Pois...

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]

[ADENDA: Vale a pena ler "É 25 de Abril mas isso não interessa para nada" de MVA]

Quinta-feira, Abril 23, 2009

balde de água fria...

...é o que isto é. O reconhecimento do Genocídio Arménio não pode ser feito com tibiezas ou delicados paninhos quentes. Por muito que a geopolítica dos interesses o imponha. Isto porque se, por um lado, é certo que a História consagrou os grandes estadistas não pelos seus lirismos mas por aquilo que foram capazes de efectivamente fazer pelos Estados que representavam, também é certo que Obama quis firmar a Nova Era da Política "of the People for the People", de face humana e ética, tendo, certamente com mérito, criado em sua volta toda uma iconografia política nada condizente com os ditames desta real politik - tantas vezes moralmente corrompida- das chancelarias diplomáticas. Reconhecer o Genocídio Arménio é um imperativo moral tão forte como reconhecer o genocídio nazi ou o genocídio ucraniano pela Grande Fome porquanto também aqui - na denúncia do sofrimento alheio mesmo quando isso não agrada aos 'Grandes' - se poderá ver razão bastante para o credo de Esperança nesse Übermensch que o Mundo inteiro parece ver em Obama.

Domingo, Abril 19, 2009

Nacionalismos e Patriotismos

Mário Soares tem razão quando considera que o apoio de José Sócrates à recandidatura de Durão Barroso à presidência da Comissão Europeia "não tem nada de patriótico".

O papagueado descrédito na Política vem justamente, e também, de uma certa noção que o comum e médio cidadão tem da conveniência de critérios de decisão política que escapam a qualquer lógica moral ou ideológica, normalmente enviesados quando não mesmo corrompidos.

É por isso que quando um político apoia outro de um suposto diverso quadrante político-ideológico, deverá ser onerado com uma especial responsabilidade na explicação das suas razões. Assim o impõe uma certa lógica subjacente à escolha política do indíviduo em Democracia sob pena de a diferença - necessidade democrática na síntese das melhores escolhas políticas - se tornar indestrinçável.

Assim sendo, a provocação mais que antecipável do deputado do PSD Paulo Rangel a Sócrates não poderia ter tido pior resposta. Isto porque - tão-simplesmente, e como bem nota Soares - um político não se torna bom porque portador de um passaporte português. As palavras de Sócrates, clamando o patriotismo do PS, não foram Nacionalismo, ao contrário do que considerou M.S.. Foram, isso sim, Demagogia. Da pior.

PS: E no que toca o apoio a Durão Barroso, vale a pena dar uma vista de olhos pelo site da plataforma pan-europeia Todos menos Barroso! Se bem que - lá diz uma grande amiga e colega - um mal dividido por todos, custa menos...

Sábado, Abril 18, 2009

agenda #49

O Grupo de Teatro Miguel Torga da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova leva a cena a peça "Vestido de Noiva", de Nélson Rodrigues.

Em Lisboa, nos dias 18, 21, 23, 24 e 25 de Abril , sempre às 21h30, no Anfiteatro I da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa.

Em Faro, dia 9 de Maio, às 16h e 21.30, no Auditório Pedro Ruivo do Conservatorio Regional do Algarve.

Quinta-feira, Abril 16, 2009

"tudo muito macho"

Acerca da vontade do SUP, Sindicato Unificado da Polícia, em ver plasmada nos novos estatutos da PSP a não discriminação com base na orientação sexual,bem como das (quase cómicas de tão ridículas que são) polémicas internas inter-sindicais, vale a pena ler o texto do amigo Heliocoptero no Devaneios LGBT: É "tudo muito macho" por aquelas bandas...

Segunda-feira, Abril 13, 2009

Entretanto, na Moldávia, a Revolução Twitter...

Respondendo às queixas de quem já considera o Devaneios demasiado parado, regressamos, em jeito de penitência, a um tema que sabemos interessar quem se queixou - o .

E, , tem faltado um olhar sobre a Moldávia, país que já tanto diz à matriz social portuguesa e, paradoxalmente, do qual tão pouco se fala por cá.

Desde de 6 de Abril que os tumultos tomaram conta das ruas de Chişinău em consequência das eleições legislativas que, pela terceira vez seguida, deram a vitória ao Partido Comunista da Moldávia do Presidente Vladimir Voronin. O panorama tem sido, desde então, o comummente observável em todas as revoluções "coloridas" a que temos assistido no leste europeu e Cáucaso: os milhares de manifestantes, descontentes com os resultados de eleições quase sempre consideradas por eles fraudulentas, protestam invadindo órgãos de soberania e exigindo uma recontagem dos votos.

Verdade ou não, o facto é que, por estes dias, o presidente tenta dominar a tensão das ruas falando ao país sempre pelos canais oficiais, para tanto fazendo uso, por exemplo, do Moldova Suverana, um site noticioso pró- Partido Comunista que, curiosamente ou talvez não, tem sido o único a funcionar sem interrupções por estes dias.

Mas, talvez não seja de espantar.

Senão vejamos: o diário romeno Cotidianul contava, há dias atrás, a situação de bloqueio de facto que a imprensa moldava atravessa, com editores a braços com a impossibilidade de acesso da população aos seus conteúdos por imposição de grande parte das empresas fornecedoras de internet. Por outro lado, o historial pouco democrático do Poder moldavo é conhecido. Em 2004, por exemplo e na sequência das eleições que deram vitória a este mesmo partido, o Senado norte americano notou a existência de um preocupante fenómeno de detenção e ameaça de candidatos políticos da Oposição bem como episódios de supressão de Liberdade de Imprensa e favoritismo da Imprensa estatal, não hesitando mesmo em fazer uso da expressão "autoritarismo moldavo".

A Amnistia Internacional, por seu turno, fornece-nos casos concretos: entre muitos, refira-se o desaparecimento de Gheorghe Ionel, presidente de uma Câmara do partido da Oposição, visto pela última vez a ser forçado a entrar num veículo das autoridades por cerca de 20 agentes.

É neste contexto que a imprensa romena - convenhamos, talvez assim não tão desinteressada - nota o advento da geração twitter e da possibilidade de partilha rápida de conteúdos. Enquanto o Presidente falava, na TV oficial, da necessidade de esmagar a "pugna de fascistas que procuravam a destruição do Estado", as mensagens rápidas circulavam e levavam à revolta.

Contudo, os paralelismos políticos com outros casos que temos analisado no Devaneios não se ficam, apenas, pelos factores internos.

A Rússia - que vem apoiando os separatistas da Transdnistria - território de jure moldavo mas de facto não controlado pelo Governo de Chişinău fala da necessidade de composição pacífica da altercação. Ito, ao mesmo tempo que Alexei Ostrovski - Responsável da Duma - Parlamento Russo -pelas questões da CEI - acusava os interesses ocidentais de estarem na base das revoltas moldavas, procurando obter mais outra «revolução colorida» (sic). A agência noticiosa estatal russa Interfax tem acusado, em particular, o Governo de Bucareste.

O Presidente Moldavo, embalado na "sugestão" russa, tratou de prontamente expulsar o Embaixador Romeno Filip Teodorescu, reintroduzindo a obrigatoriedade de vistos para todos os cidadãos romenos.

A Moldávia é mais um exemplo daquilo que a Comunidade Internacional tarda em querer ver na Rússia. Tudo em aberto, por estes dias, em Chişinău enquanto, à semelhança de Belgrado, Tiblissi, Kiev ou Bishek, se vai jogando mais uma peça do xadrez...

Domingo, Abril 05, 2009

Partilha'te

Conforme aqui disse, o Devaneios está disponível para, sempre que possível, cooperar na divulgação de projectos e actividades políticas, culturais, sociais e/ou artísticas, sempre que se mostrem de acordo com o objecto deste blogue.

Assim sendo, na caixa de bitaites do Devaneios surgiu uma solicitação de colaboração e apoio a um projecto a que com muito gosto prontamente aderimos.

Trata-se do projecto "Partilha'te".

O objectivo desta ideia é criar um livro através da partilha de histórias. Histórias reais, simples ou complexas, tristes ou alegres, grandes ou pequenas, de rejeição ou aceitação, de amor ou de ódio, individuais ou de grupo, mas histórias que partilhem fragmentos de vida. Com este tipo de comunicação, o autor espera contribuir para a temática da homossexualidade no sentido em que seja possível que outros possam também vê-la como algo banal. Basta clicar "A Tua História" e contar como foi...

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]

apoio...

...incondicional a este projecto. "Quero andar a pé. Posso?"

Sábado, Abril 04, 2009

cartoons: mais Estado?

"A questão é: mais Estado?...Ou muito mais Estado?"

Um cartoon de Chappatte, publicado no diário Le Temps de Genebra, acerca das questões em cima da mesa da Recente Cimeira do G20, em Londres.

resoluções perigosas

Sucede que, relembrando o assunto das caricaturas dinamarquesas de Maomé, a Turquia opôs-se hoje, de forma veemente, à nomeação de Rasmussen, primeiro ministro dinamarquês para Secretário Geral da NATO, dado que, à altura dos ditos desenhos, defendeu aquele governante o direito da Imprensa dinamarquesa a fazê-los e publicá-los.

E, bem ou mal, Anders Fogh Rasmussen fê-lo em honra ao direito fundamental do Povo dinamarquês à Liberdade de Expressão.

A Resolução da Nações Unidas nº 62/154, conhecida por "resolução de combate à difamação das Religiões" surge na sequência dos esforços e pressões que a Organização da Conferência Islâmica - um lobby poderoso de 56 estados islâmicos - vem desenvolvendo junto dos competentes órgãos das Nações Unidas. O grupo, que tem estado particularmente activo na busca de soluções jurídicas internacionais que combatam a difamação das religiões, apresentou a resolução, em Genebra e em meados do mês passado, para aprovação do Conselho para os Direitos Humanos da ONU, tendo-a obtido sem grandes dificuldades.

Discordando-se, embora, de alguns aspectos de algumas críticas mais radicais que se encontram na internet, dever-se-à sempre reconhecer que o texto da Resolução esboça a traço lago algumas tendências contemporâneas perigosas no que respeita ao modo de encarar a Religião.

Lido seu articulado, e deixando de lado as comuns declarações de interesse e as verdades humanitárias longe de qualquer debate, nota-se algum engenho na tendencial defesa de ideias e não de indivíduos. O que é, convenhamos, perigoso porquanto procura implicitamente criar uma blindagem à crítica e um direito "humanitário" à proibição do debate.

Notemos, por exemplo, o ponto 10 da Resolução bem como a fórmula particularmente perigosa em que foi redigida:

«10. Enfatizando que todos têm direito à opinião sem interferências e o direito à expressão, sendo que o exercício de semelhantes direitos acarreta especiais responsabilidades e deveres podendo, nessa medida, ser submetido a limitações nos termos da lei, necessárias para assegurar o direito à reputação dos demais, a sua honra, a Ordem pública, Moral Pública e respeito pelos Credos religiosos"

Trata-se de uma resolução de valor jurídico não vinculativo muito embora se deva referir que constitui um afloramento de uma tendência crescente. A Conferência Islâmica vem defendendo, por exemplo, o direito a plasmar esta doutrina nos textos finais da Conferência de Durban da ONU que se espera virem reafirmar todo um conjunto de novas regras para o Direito Humanitário Internacional. Por outro lado, a prepara-se para apresentar à Assembleia Geral da ONU um protocolo internacional wobre este mesmo tema.

E mais perigoso se afigura esta Resolução, não pelos efeitos que possa ter nos países ocidentais - poucos ou nenhuns, para além da auto-censura- mas pela cobertura pseudo-humanitária que potencialmente poderá dar a tantos atentados ao Direito Humanitário nas teocracias islâmicas.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

devaneios CityBreak: Bremen

Bremen!! Desde 5 euros (taxas incluídas), à partida de Faro em voos directos da Ryanair, ou a partir de 86 euros (taxas incluídas), também à partida de Faro mas em voos directos da air berlin.

Para outras sugestões do Devaneios, consultar a coluna "devaneios CityBreak" deste blog ou este site.