Domingo, Julho 19, 2009

o espaço intermédio

A declaração de voto de Vale de Almeida teve repercussões pela blogoesfera de esquerda fora, lançando um interessantíssimo debate que chegou às caixas de comentários deste Devaneios. As reacções foram inúmeras (Tiago Mota Saraiva no 5dias, Daniel Oliveira no Arrastão ou a acidez de José Guilherme Gusmão no Ladrões de Bicicletas) e tenderam a criticar a orientação de voto evidenciada. Por vezes, até, com argumentos excessivamente 'ad homine'.

Mas vejamos por partes.

Há, de facto e como bem nota MVA, um espaço intermédio no presente espectro político-partidário, algures entre o Bloco de Esquerda e o PS. Esse espaço é marcado por uma consciência moderada que compreende, se entusiasma e apoia o esforço modernizador do Bloco de Esquerda e a lufada de ar fresco que aquele partido foi para esta última década da política portuguesa. Que reconhece a frontalidade bloquista na defesa da Interrupção Voluntária da Gravidez, na luta contra a , o nepotismo e injustiça generalizada ou, por exemplo, no combate sem tibiezas à . Mas este espaço intermédio apresenta-se plástico, móvel e sobretudo livre, liberto de vínculos e elos partidários, recusando à partida qualquer pertença partidária neste espectro político. É assim, e por isso, que este espaço intermédio aprecia, também, os passos que o PS esporadicamente enceta buscando, algo desorientadamente é certo, um regresso à Social Democracia; Que compreende e saúda o empenho na reformulação das políticas de energias alternativas pela mão dos socialistas, rumo a uma sustentabilidade energética mais verde; Que suspira de alívio com o travão colocado pelo PS à privatização da Segurança Social; que admira o caminho aberto na renovação dos serviços públicos, dignificando-os, modernizando-os e enaltecendo as suas funções; e que saúda, ainda que lamentando o atraso, a decisão libertar divórcio de moralismos já desconexos da realidade emocional das famílias portuguesas.

Mas este espaço intermédio nota, porque observador livre, a demagogia a que, por vezes, se entrega o aparelho bloquista. Não vê com bons olhos a recusa absoluta de viabilização de uma alternativa governativa de Esquerda ao possível regresso de Manuela Ferreira Leite em compadrio com Cavaco Silva na Presidência, prometendo "rasgar" (sic) todas as políticas sociais. Recusa a irracionalidade de soluções que procurem tirar Portugal da NATO e o clubismo bolorento que quis compreender a brutalidade das acções de um Kremlin cada vez mais totalitário.

Mas esta "consciência do meio" também não gosta da malha tentacular de interesses que o aparelho socialista não pôde, não soube ou, porventura, não quis combater. Não compreende a falta de ímpeto reformista quando existe uma maioria política confortável, repugna a leviandade e a irresponsabilidade social das reformas laborais, despreza o maniqueísmo político e a partidocracia e enoja-se perante o silêncio da resposta ao Homofobia evidente do IPSangue, não se deixando, no entanto, espantar porquanto na sua memória ainda estão as declarações acerca deste tema proferidas, ainda há uns meses atrás, pelos deputados socialistas: "Não há discriminação, apenas precaução"...

Assente o que acima se disse, reconheça-se que a escolha é difícil para esta esquerda de enclave, cercada e deixada sem grandes hipóteses. Deixemo-nos, pois, de maniqueísmos (como alguns que por aí se leram nos ultimos dias) pois que razões assistem, em teoria, a estes desalinhados para votarem num ou noutro. E, assim sendo, reconheça-se a Miguel Vale e Almeida o devido crédito de ter exposto, de forma aliás brilhante, os paradoxos que afrontam este "espaço intermédio". Classificá-lo de "agenda de um só tema" é contraproducente quando, aliás, se afigura tão pouco presente na sua exposição de motivos da orientação de voto o tema do Casamento Civil entre homossexuais.

Decerto, MVA representará as linhas com que se cose e compreenderá a instrumentalização que o assunto homofobia sofreu nas mãos de um Partido Socialista, incapaz de reconhecer em devido tempo direitos fundamentais de uma minoria. E, por isso mesmo, parece-me óbvio que as suas razões serão bem mais vastas do que a agenda LGBT.

Deste modo, compreendo a 100% as dúvidas que plasmou no seu "Os Tempos que correm".

Não obstante, em consciência considero que há uma estratégia evidente de desacreditação dos flancos por parte do Bloco Central partidário, buscando espalhar a noção de que as alternativas não são verdadeiramente alternativas.

Se, conforme referido na caixa de comentários deste Devaneios e no que toca à matemática eleitoral, isso pode ser verdade, não é menos verdade de que só a pressão política de determinada agenda fará o bloco central partidário português compreender a urgência de uma nova política social democrata, de transparência, rigor e responsabilização. Exigente, de qualidade, moderna, atenta e proactiva. Compreendo muito bem, e em certa medida sufrago o entendimento de quem me diz ser importante assegurar uma maioria de Esquerda em face do que potencialmente se adivinha. Mas não consigo, em consciência, livre, render-me à tentação do Medo e à chantagem do devir.

Sexta-feira, Julho 17, 2009

da presunção de promiscuidade

O Ministério da Saúde respondeu à Assembleia da República, com o apoio do Presidente do Instituto Português de Sangue, que os homossexuais estão mesmo impedidos de dar sangue. As autoridades portuguesas entendem que os portugueses homossexuais não podem doar sangue por causa dos "seus comportamentos de risco". Por outra palavras, são impedidos porque considerados, sejamos claros e directos, promíscuos. E diz o Presidente do Instituto de Sangue que isto não é discriminação. Mesmo se os homossexuais masculinos (sim, so os homens!) são, à partida, todos excluídos porque...homossexuais. Porque não há qualquer comportamento de risco que um homossexual masculino possa ter que um heterossexual masculino não possa, tudo isto é simplesmente vergonhoso. E lamentável, quando destes senhores se apregoa de papo inchado o advento de uma Esquerda Moderna.

Sábado, Julho 11, 2009

Ovelha Rosa. Já online!

Um dia, num autocarro do Alabama, uma mulher não se levantou para ceder o seu lugar. Entendeu, na clareza nítida de um instante tornado histórico que a sua dignidade de ser humano não se vergava perante os ditames de uma maioria porque, pura e simplesmente, maioria. Na lucidez anunciadora de uma nova Era, a senhora que, por ser negra, costumeira e juridicamente estaria, à partida, obrigada a entregar o seu lugar a quem tivesse sido agraciado com a genética branca de uma maioria pálida de falta de vergonha, permaneceu exactamente onde estava.

E recusou ceder. Negou sufragar os entendimentos de quem não compreendia a História. E, com ela ali sentada, levantaram-se tantos que de um regato se fez um Rio e de um Rio se fez um Mar de ansiosos por Justiça.

E Liberdade.

Ser activista de direitos cívicos é transportar em nós algo de Rosa Parks. É não entender, compreender, aceitar ou conceber que determinado individuo possa ser reduzido, menorizado, menosprezado porque, tão simplesmente, diferente. É negar as amarras de um atavismo que nos prende e propositadamente nos quer impor a fatalidade inabalável da coisas como elas são.

Ser activista dos direitos LGBT é, naturalmente, assumir a defesa de uma causa que é, acima de tudo, humanitária e cívica.

É afirmar, à luz clara de um dia que também se fez para nós e com um orgulho que é desenvergonhado e despretensioso, o advento de uma nova Era em que não cedemos a ninguém o lugar que também é nosso nesse autocarro da Liberdade.

[Foi este o meu modesto contributo para o novo Portal Ovelha Rosa. Activismo, visibilidade LGBT, política, viagens, encontros, consultórios jurídicos e médicos, cultura, shopping...tudo num projecto para todos e com todos, ao qual desejo as melhores felicidades.]

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Calma, não é assim tão fácil...

A vitória (aliás, pouquíssimo sápida...) do nas teve o condão de revelar alguns sentimentos afundados no aparelho social democrata. De entre os mais óbvios, destaque-se o pulsar revanchista das elites do partido, que nunca lidaram muito bem com o fardo de serem Oposição, quanto mais assumi-la com seriedade e competência.

Sente-se, nessas mesmas elites com acesso privilegiado a crónicas, colunas, comentários televisionados e blogues de grande audiência, a euforia de quem e adivinha Poder, de quem pugna um ajuste de contas. De quem procura, quase que por mero aparelhismo, um volte face de políticas que risque as soluções até agora propugnadas e regresse às outras sabidas igualmente ineficazes, quando não mesmo socialmente terroristas.

À cabeça, numa claridade tão impoluta quanto estudada, esse mesmo aparelho, numa incapacidade angustiante de se regenerar, apresenta-nos como modelo daquilo que Portugal deverá ser. Uma "política de verdade" que, na verdade das coisas, mais não faz do que espicaçarmo-nos a regressar às mentiras, velhas de anos, que nos têm oferecido.

E a aposta, a força motriz colocada na imagem de seriedade e rigor... Essa coisa salazarenta, pegajosa e recorrente que é a figura paternal da sobriedade, rigor e ausência de palavras. O quantum implícito de saudosismo salazarista, que se dá e vive bem com a não expressão de qualquer ideia política digna de seu nome, que galvaniza as Direitas, neutraliza as Esquerdas e que espreita sempre que o Povo se embala na Demagogia política vigente.

Mas é preciso mais. No deserto político que é este PSD, a proximidade do Poder pode ser tão somente a miragem de um óasis. O pulsar nervoso de quem se estica para chegar lá, para ter o poder e dele fazer o que se lhe aprouver durante 4 anos, pode ser imensamente contraproducente. A ausência de um projecto sério não se pode bastar com o galvanizar do descontenatamento e do desmérito socrático. Até porque, digam o que disserem os analistas políticos, são as maiorias amorfas, politicamente analfabetas, pouco sensíveis a querelas ideológicas ou de estilos, que dão e tiram maiorias. E no jogo da pesca dos descontentamentos desse imenso cardume, o PSD deixou de estar sozinho. E isso, podendo parecer que não, ajuda Sócrates.

PS: Acerca de MFL, vale a pena acompanhar a campanha “Sei o que fizeste no governo passado", no blogue O Valor das Ideias...

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Honduras, à antiga...

Manuel Zelaya não era, de facto, o mais aconselhável dos presidentes. Populista e demagogo q.b., com rasgos autoritários (sobretudo no seu relacionamento com os media hondurenhos, impondo aos mesmos horas diárias de propaganda pró-governo), o presidente deposto das Honduras vinha cultivando uma proximidade dogmática do Chavismo em tudo o que isso tem de mau.

Contudo, era e é o presidente democraticamente eleito por um Povo soberano. A escolha que fizeram os únicos que, para isso, tinham poder. E é tão simplesmente por isto que o golpe de Tegucigalpa é tão assustador. É que, pelos vistos, basta uma simbiose muito ténue entre os desígnios de uma elite judicial pouco digna desse nome e as prepotências de militares pouco escrupolosos para termos um golpe à antiga: com suspenção de liberdades constitucionais, detenções arbitrárias sem julgamento e perseguição de oposicionistas. Aterrador, sobretudo se quem o faz o leva a cabo em nome da Democracia...

cartoons: os amigos de Madoff

Um entre tantos. A prisão de Madoff, vista num cartoon de Signe Wilkinson publicado há dias no Philadelphia Daily News dos EUA.