Uma excelente resposta no Devaneios LGBT, pelo cunho do Hélio, à abertura oficial das hostilidades por parte da Igreja Católica.
Domingo, Outubro 25, 2009
do apelo às "prioridades"
Nick Griffin no question time da BBC
Nick Griffin, líder de um dos mais perigosos e extremistas partidos de Extrema Direita da política europeia - o British National Party - pode parecer pouco mais do que um idiota candidatando-se a eleições. Mas das fileiras do seu partido são regularmente ouvidas declarações políticas como a necessidade de o Reino Unido dever voltar a ser 99.9% geneticamente branco, a SIDA ser uma boa doença porque "só atinge pretos e gays", o Holocausto não ter existido ou ainda defesa recorrente da reintrodução dos castigos corporais no Direito Penal e da Pena de Morte para terroristas, homicidas e pedófilos.
E, verdadeiramente pior nesta lista de horrores, é já contar com mais de um milhão de votos e apoiantes em território britânico.
Nesse sentido, muito espantou a opinião pública britânica que a paradigmática e algo tradicionalista BBC tivesse convidado Nick Griffin para um dos seus programas/debate de maior audiência.
Enquanto esteve no ar passado dia 22 de Outubro, Griffin afirmou que os homossexuais são “arrepiantes”, considerou o Ku Klux Klan norte-americano como "não-violento", e disse acreditar que as populações “indígenas” brancas do Reino Unido são oprimidas pela imigração islâmica que causa um "genocídio comparável ao dos aborígenes da Austrália".
A BBC tem sido imensamente criticada por alguma imprensa por ter gratuitamente proporcionado exposição mediática ao British National Party. No entanto, este tipo de iniciativas - nos moldes em que a BBC o fez - devem ser seguidas e repetidas.
O question time da BBC evidenciou, em plenitude, a união da política mainstream contra o extremismo mais abjecto, desmontando racionalmente cada um dos argumentos do BNP. Trata-se de um exercício pedagógico absolutamente necessário que deve buscar a exposição do ódio gratuito e das consquências da aplicação daquilo que não passa de um cabaz de ideiais racistas e xenófobos.
O pior que os a política mainstream pode fazer é ignorá-los.
Quarta-feira, Outubro 21, 2009
liberdade de expressão PSD
Domingo, Outubro 18, 2009
o casamento, o Bloco e o PS
Diz-se, por aí, que o projecto de alteração do Código Civil no tocante ao casamento entre indivíduos do mesmo sexo, apresentado há poucos dias pelo Bloco de Esquerda, não passa de chicana política e de uma tentativa de encostar o PS e o novo governo à parede em face de uma promessa sua. Refere-se, em tantas linhas de tantos blogues, que o calculismo imperou e que o xadrez se faz à custa dos homossexuais que esperam e anseiam pelos seus direitos. De certo modo, acredito que sim, que o assunto possa estar a ser usado como arma política. E que, de algum modo, não me é particularmente simpático que direitos cívicos sejam algo instrumentalizados como forma de mapear estratégias políticas.
Mas, por outro lado, dificilmente se compreende a insistência de que terão que ser construídas pontes e lançados diálogos. Que pontes? Que diálogos? Se acabar com a discriminação é prioritário para o PS (nas palavras do seu próprio programa eleitoral) então a igualdade de acesso ao casamento civil deverá ser obtida o mais rapidamente possível. O que há, então e verdadeiramente, a recear no avanço do BE? Parece que apenas protagonismo...E, aqui chegados, parece algo óbvio que o BE tem todo o direito a fazê-lo, sobretudo se consigo tiver o passado de único, inequívoco e claro defensor dos direitos dos homossexuais.
É estratégia? Talvez seja. Mas a Democracia também é feita disto. Saiba o PS lidar com isso e sobretudo com quem não está disposto a aceitar tibiezas ou "ponderações de última hora" naquilo que é, tão somente, a mera consagração de direitos humanos.
[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]
Domingo, Outubro 11, 2009
uma "mulher" que resistiu a Berlusconi
Passado 8 de Outubro, o Tribunal Constitucional italiano considerou contrária à Constituição a Lei Alfano, a tal intuito personae que vinha concedendo imunidade às quatro mais importantes funções do Estado, entre as quais a do chefe do Governo, Silvio Berlusconi. Trata-se, saibamos reconhecer, de uma excelente notícia, não apenas para italianos, mas para todos aqueles que pugnem pela primazia da Democracia na definição da Igualdade de todos, sem excepção, perante a Lei. Sobretudo quando os sinais de salubridade democrática que emanam de Itália se revelam extremamente preocupantes, com a natureza sistémica de perigosíssimas tensões sociais exposta à claridade do dia sem que se venha assistindo a particular ou notória reacção de recusa ou expurgo por parte da sociedade italiana.
Assente isto, diga-se que a imprensa internacional aplaudiu - e bem! - a batalha perdida para Berlusconi que foi a derrota no Tribunal Constitucional Italiano e a concomitante vitória da empenhada e persistente Magistratura de Milão que vem, aliás, travando um duelo vigoroso com o actual presidente do Conselho de há muitos anos para cá.
Mas existe, porventura, um problema, ou melhor, uma característica persistente nos observadores políticos não italianos que é patente nas diversas crónicas que se leram por estes dias no jornalismo europeu: A inteligentsia europeia, com o seu xadrez valorativo norte-europeu, olhou com os seus próprios olhos para escândalos sexuais do Verão italiano, com "garotas de programa" transportadas em aviões da força aérea para festas de vícios "privados" de políticos da direita do leste europeu bem como para a pressão exercida por Silvio Berlusconi sobre os meios de comunicação social, para os silenciar, como delírios de um playboy aos comandos de um país que pouco mais tem sido do que pão e circo, corrupção, deboche e regabofe desregrado.
Há, pois, uma redução do problema a uma espécie de folclore transitório supostamente tipicamente italiano que inevitavelmente passará se e quando os italianos se livrarem de Berlusconi.
Mas, na verdade, é muito mais do que isso. Com efeito, a questão italiana passa pela concreta noção de que Berlusconi não é, por si só, a causa e consequência de todo o circo montado. Il Cavalieri é aquilo que é porque o povo que o suporta assim o quis. Porque a rua italiana acha piada ao gingão que ludibria o sistema em obtenção de proveitos próprios, que desvia aviões luxuosos para transformar voos de Estado em charters de raparigas, por assim dizer, pouco católicas; que trata o governo da coisa pública como se uma claque de futebol fosse, apelando a clubismos e vendo inimigos comunistas em todo o lado; Porque, na verdade, a rua italiana adere acriticamente ao princípio "Quem está contra mim é anti-italiano" que Berlusconi popularizou, logo de seguida aceitando, sem questionar, que médicos denunciem imigrantes ilegais, que as "rondas" de cidadãos sejam possíveis em Itália e que a separação dos seus pais e adopção forçada dos filhos de imigrantes ilegais seja nova prática do Estado.
E é por isto mesmo que decretar a morte política de Berlusconi - como tanta vezes fizeram editoriais por essa Europa fora - parece profundamente precipitado. O presidente do Conselho de Ministros italiano vem seguindo uma lógica de permanente teorização da cabala, sugerindo recorrentemente a existência de "forças ocultas de Esquerda" que trabalham contra ele. Aos olhos razoáveis que a distância impõe, qualquer observador diria ser este um exemplo de desespero político.
Mas pode também ser, tão simplesmente, a janela de sobrevivência política. A teorização da cabala, da união "do oculto" contra os desígnios do Poder, não obstante aparentemente ridícula, tem como característica alimentar-se a si mesma. Sobretudo, se propagada num país em que o sistema de Justiça se encontra profundamente desacreditado junto das populações, que não lhe reconhecem qualquer crédito que não o da gestão dos assuntos das corporações e interesses que dele fazem uso.
Quarta-feira, Outubro 07, 2009
Segunda-feira, Outubro 05, 2009
res publica (ou o meu exercício de wishful thinking)
Lembrar os valores republicanos é pugnar pela consagração de um espírito de vigência plena da Igualdade e Liberdade. É denunciar opressões e atavismos cujas amarras enclausuram uma sociedade inteira no seu atraso. É compreender que a discriminação, o abuso de poder, o triunfo do mais forte e a inequidade por si mais não fazem do que criar níveis diferenciados de cidadania, eclipsando o adquirido civilizacional que é a absoluta e inegável dignidade de todo e qualquer ser humano.
Saiba, pois, a Assembleia da República, aproveitando a maioria de Esquerda que nela tem assento, aproveitar isso mesmo para, no centenário da República que se avizinha, afirmar em plenos pulmões o seu espírito.
