Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

o buraco (mais outro)

A sucessiva abertura de telejornais começa a tornar o tema BPP demasiado preocupante para se deixar passar sem uma análise daquilo que todos os dias esta questão nos vai progressivamente revelando. E, para além do -admita-se sem tibiezas- sofrimento dos pequenos depositantes que enfrentam a quase certeza do desaparecimento de legítimas poupanças de vida, existem questões que talvez devessem merecer mais explicações das autoridades competentes.

Senão, vejamos: sabemos hoje que Tribunal de contas chumbou o aval do Estado ao empréstimo de 450 milhões ao BPP. Disse aquela cúria que o referido aval concedido pelo Estado ao Banco Privado Português no ano de 2008 não cumpriu as normas legais exigidas neste tipo de operações. Não existiu, pelos vistos, qualquer plano de recuperação da instituição. "Não existindo essa segurança, a garantia não poderia ter sido concedida" argumentou o Tribunal de Contas.

Mas foi.

A resposta da Direcção Geral do Tesouro e Finanças foi que "as contragarantias prestadas tinham valor contabilístico superior ao montante do financiamento".

Um ano depois, os auditores costumeiros nestas andanças (no caso, a Deloitte) dizem-nos que as ditas garantias valem 150 ou 200 Milhões de Euros. O que, deixe-se claro, não espanta dado, por um lado, os interesses de quem solicita este tipo de avaliações mas, também e por outro, o facto de ter o dito Tribunal notado que "dada a grande celeridade que revestiu o processo de concessão da garantia do Estado, esses bens foram, quando muito, objecto de uma análise superficial e aceites pelo valor indicado pelo BPP: 672 milhões de euros. Mas, logo na primeira análise efectuada pelo Banco de Portugal, o valor desses bens estava já reduzido para 439 milhões de euros".

Admitindo-se, como parece ser óbvio, que a expressão "análise superficial" aqui empregue não passa de um puro eufemismo para algo que não se arrisca afirmar, resta-nos a legítima questão: se o Ministério das Finanças nos garantiu que não havia risco sistémico, por que critérios insondáveis se guiou tão sumária decisão? E a questão não é de somenos importância: afinal de contas, trata-se "apenas" de mais um buraco, 400 Milhões de Euros mais coisa menos coisa, que todos pagaremos.

Domingo, Dezembro 20, 2009

o deputado Carlos Peixoto

As declarações do insigne deputado Carlos Peixoto devem, ao contrário do que alguns parecem fazer querer, merecer comentário.

Primeiro, e numa tonalidade mais genérica, o reparo que se impõe à qualidade intelectual e brio profissional de alguns dos deputados que vimos escolhendo para nos representar: é que o medo ainda colhe apoio - e muito, pelos vistos -como modo de fazer política e na ausência de ideias, de argumentos propriamente racionais e razoáveis, a demagogia será sempre um instrumento portátil e eficiente na captação de votos, sobretudo se o disparate, o desatino e o absurdo forem ditos com uma certa sobranceria de quem é...deputado.

Depois, no caso em particular da consagração do casamento civil entre pessoas do mesmo genéro, porque nos lembra a todos das razões desta luta. E da sua continuidade, mesmo depois de obtida a vitória final, algures no dia em que a alteração legislativa for dada à estampa oficial em Diário da República. É que agora como daqui por muito tempo, subsistirão muitos "Peixotos" - de uma banca de um qualquer Mercado às bancadas daquela Assembleia pátria - interessados em confundir, generalizar, deturpar, discriminar e em, sobretudo, arranjar razões aparentemente lógicas para o fazer.

É importante que, na sensação ilusória de uma verdade que nos parece auto-evidente, não o esqueçamos. Sobretudo agora que o adversário parece empenhado em cerrar fileiras na costumeira e historicamente popular simbiose de ódio e ignorância.

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT ]